Ensino de História: temporalidade, pós-verdade e verdade poética

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DOI:

https://doi.org/10.5965/21751803ne2021e0110

Resumo

Ouvindo alunos da graduação nos 4 estágios supervisionados que temos no departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), percebi que 2 temas têm aparecido e retornado com frequência: a) certo desinteresse, ao menos inicial, dos estudantes do ensino básico pelo passado, pela história e pelo ensino de História, especialmente no que diz respeito a um modo específico de relacionamento com passados: o epistemológico-crítico-pragmático; e, também, b) certo questionamento dos alunos (às vezes até mais enérgico/violento) de determinadas interpretações propostas pelos professores. Temos pensado sobre esses desafios ao longo de nossos cursos, de modo que este artigo aborda parte de nossas discussões sobre as questões da temporalidade e da pós-verdade, especialmente naquilo que diz respeito a certo desinteresse pela história e pelo ensino de história. E, por fim, tematizamos um comportamento epistemológico a partir do qual seria possível certo reencantamento da história e do ensino de História, o que denomino verdade poética.

Palavras-chave: temporalidade; pós-verdade; verdade poética.

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Biografia do Autor

Marcelo de Mello Rangel, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

Doutor em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Professor dos Programas de Pós-Graduação em História e em Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

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Publicado

2021-10-06

Como Citar

RANGEL, M. de M. Ensino de História: temporalidade, pós-verdade e verdade poética. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, p. e0110, 2021. DOI: 10.5965/21751803ne2021e0110. Disponível em: https://revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/21751803ne2021e0110. Acesso em: 26 out. 2021.