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O que dizem as aranhas:
educação somática e presença vital
Dani Lima
Para citar este artigo:
LIMA, Dani. O que dizem as aranhas: educação somática
e presença vital.
Urdimento
- Revista de Estudos em
Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1 n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0105
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O que dizem as aranhas: educação somática e presença vital
Dani Lima
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-20, abr. 2026
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O que dizem as aranhas1: educação somática e presença vital2
Dani Lima3
Resumo
Este artigo é um ensaio teórico sobre a necessidade de uma educação somática que
possibilite a reconexão com os saberes do corpo, desde suas materialidades, para o
contínuo acionamento de um erotismo vital criador de novos modos de existência e de
reconfiguração das potências de presença e de atuação do corpo com o meio ambiente.
O artigo é um desdobramento da tese de doutorado da autora e dialoga com referências
do campo da biologia, da filosofia feminista e das práticas somáticas, tais como Vinciane
Despret, Bonnie Bainbridge Cohen, Silvia Federici, entre outras.
Palavras-chave
: Anatomia. Corporalização. Saber celular. Educação somática.
What the spiders say: somatic education and vital presence
Abstract
This article is a theoretical essay on the need for somatic education that enables
reconnection with the knowledge of the body, from its materiality, for the continuous
activation of a vital eroticism that creates new modes of existence and reconfigures the
powers of presence and action of the body with the environment. The article is an
offshoot of the author's doctoral thesis and dialogues with references from the fields of
biology, feminist philosophy, and somatic practices, such as Vinciane Despret, Bonnie
Bainbridge Cohen, Silvia Federici, among others.
Keywords
: Anatomy. Corporalisation. Celular knowledge. Somatic education.
Lo que dicen las arañas: educación somática y presencia vital
Resumen
Este artículo es un ensayo teórico sobre la necesidad de una educación somática que
permita la reconexión con los conocimientos del cuerpo, desde sus materialidades, para
la activación continua de un erotismo vital creador de nuevos modos de existencia y de
reconfiguración de las potencias de presencia y actuación del cuerpo con el medio
ambiente. El artículo es una extensión de la tesis doctoral de la autora y dialoga con
referencias del campo de la biología, la filosofía feminista y las prácticas somáticas,
como Vinciane Despret, Bonnie Bainbridge Cohen, Silvia Federici, entre otras.
Palabras clave
: Anatomía. Corporalización. Conocimiento celular. Educación somática.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Júlia Andrade da Silva Rosa. Mestre em
Língua Portuguesa pelo Programa de Pós-graduação em Letras / PGLETRAS (UERJ) e doutoranda em Língua
portuguesa pelo Programa de Pós-graduação de Linguística e Língua Portuguesa / PPGLILP (UERJ).
2 Um percentual de 52% deste artigo faz parte da tese de doutorado da autora denominada:
Desmanual de
anatomia
. Defendida no Programa de pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade, da
Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC - Rio), sob orientação de Ana Paula Veiga Kiffer, em
2022.
3 Doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUR-Rio). Mestrado em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Educadora do
Movimento Somático pela abordagem Body-Mind CenteringSM e formada em Gyrokinesis®. Terapeuta
Psicossomática pelo método Matrix-Hakomi. Professora Adjunta do Instituto de Artes da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Artista e pesquisadora do corpo e das artes da cena, atuando há 40 anos na
cena brasileira e internacional. danilima65@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1211639296762258 https://orcid.org/0000-0001-6023-7980
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Em um mundo onde as sensibilidades estão em vias de
extinção, vocês deveriam saber como se ocupar melhor dos
seus receptores magnéticos (Despret, 2022, p.22).
Esta epígrafe é a fala de uma aranha para um aracnologista. Ele escuta a fala
da aranha como um zumbido em seu ouvido, mas em algum lugar nebuloso de
sua mente, ele é processado em forma de um pensamento vibratório: “os
zumbidos não eram sons reais, mas sensações de vibrações focadas e
intencionais, que não eram exatamente palavras, mas influxo de significados"
(Despret, 2022, p.22). As aranhas estão entre os animais conhecidamente mais
sensíveis à vibração. Elas sentem o mundo através de vibrações e frequências. São
capazes de usá-las para identificar presenças próximas, para discernir se uma
turbulência em sua teia é uma visita amigável, uma presa ou uma ameaça. Isso é
possível porque elas possuem cerca de 40 mil cerdas por centímetro quadrado
do corpo, conectadas a milhares de receptores sensoriais que as ajudam a
perceber, por exemplo, a movimentação do ar. Além disso, elas têm órgãos em
fendas localizadas sob a pele, que também ajudam a identificar vibrações do solo
(Brescovit, 2025). Este conto de Vinciane Despret narra a história de uma relação
entre aranhas e cientistas aracnologistas, na qual essas cantoras silenciosas
“vibra-berram” por socorro, vítimas que são da sobrecarga vibratória de uma
fonosfera atmosférica saturada de ondas de todos os tipos. Esta história me faz
pensar em tudo o que não escutamos, não vemos e não sentimos mais nesse
mundo saturado de frequências múltiplas em cacofonia permanente.
Como muitos cientistas, pesquisadores, artistas e ativistas, eu, uma artista-
pesquisadora-educadora, mãe de uma adolescente descrente do futuro, me sinto
temerária diante do cenário apocalíptico no qual chegamos neste século XXI, nesse
momento ímpar de crise da moderna tradição civilizatória colonialista, onde se
tornou explícito que o futuro não pode seguir reproduzindo o passado. em toda
parte uma mesma cadeia interligada de fenômenos sociais, políticos, econômicos
e ambientais que revelam as formas como este colapso vem se apresentando: o
acirramento das desigualdades sociais, a ascensão global da ultradireita e do
fascismo negacionistas, a proliferação de embates violentos entre minorias
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políticas e poderes instituídos, o agravamento da crise ambiental ao ponto de
ameaças apocalípticas, e os riscos de uma nova era de pandemias virais
incontroláveis. Vivemos a falência dessa era antropocêntrica na qual os efeitos da
ação humana passaram a deixar marcas irreversíveis nos sistemas geológicos,
biológicos, atmosféricos e sociais. Pensadores de todas as áreas do conhecimento
buscam avaliar o que se tornou insustentável nos modos de vida e fazer
diagnósticos que possibilitem delinear projetos de futuro. É urgente
empreendermos a reconstrução do eixo da vida no planeta, e para tanto faz-se
necessário expandir o horizonte das formas de conhecer, de pensar, de imaginar,
de sentir e de se relacionar. Os fundamentos de uma realidade que garantiu até
aqui que as coisas são de um certo modo, e que vão sempre seguir adiante numa
linha de progresso, estão desmoronando. Como poderemos seguir vivendo aqui?
É preciso que sejamos capazes de imaginar e realizar em larga escala gestos
fundadores de outros modos de vida. O corpo tem um papel crucial nesse
processo, pois é na relação direta do corpo com o meio ambiente que reside a
possibilidade de inaugurar novos padrões de resposta, de fundar novas realidades
perceptivas e gestuais, de redesenhar mapas neuronais. O pensamento
desincorporado, desconectado dos saberes do corpo, é fruto das tradições
epistemológicas ocidentais iluministas, racionalistas, extrativistas e colonialistas
que nos conduziram até o colapso atual. Os saberes eto-ecológicos do corpo, por
outro lado, são habilidades de manutenção e de renovação da vida partilhados
bilhões de anos por todos os organismos de matriz celular, da bactéria à samaúma,
dos fungos às baleias, das células aos seres humanos. E precisam ser escutados.
Este artigo busca refletir sobre a necessidade de valorização das dimensões
sensíveis do corpo, aquelas às quais chama a atenção a aranha do conto de
Despret, envolvendo um processo de re-corporalização, visando re-equipar seu
poder de ação através da re-aprendizagem de um "saber-sentir eco-somático",
que rearticula o pensamento à materialidade de sua natureza corpórea. Trata-se
de uma articulação fundamental para a compreensão das interdependências
ecológicas da atualidade, assim como para encontrarmos refúgios de vitalidade
em meio ao domínio absoluto da vida pela tecnologia.
O que podem nos ensinar as aranhas? Qual o substrato da escuta vibrátil
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para a qual elas nos chamam a atenção?
Célula, vida e inteligência
A vida começou na água cerca de 3 bilhões de anos, com os organismos
unicelulares um tanto de líquido envolvido por uma membrana boiando no
oceano. Através dos tempos e de inúmeros processos de cooperação e simbiose
entre seres vivos, seres mais complexos se desenvolveram, formando organismos
multicelulares. Estes seres se tornaram aglomerados de organismos vivos, como
nós, que não somos um organismo individual e único, mas uma comunidade de
cerca de 30 trilhões de organismos celulares, mais cerca de 40 trilhões de
bactérias e outros milhões de fungos. Como nos lembra a Donna Haraway, somos
holobiontes, isto é, “agrupamentos simbióticos emaranhados de diversas
relacionalidades intra-ativas em sistemas dinâmicos complexos” (Haraway, 2019,
p.88). Nunca fomos indivíduos, pelo menos não do ponto de vista biológico.
As células são a menor unidade de vida que existe. Isso envolve a vida dos
seres humanos e de todos os viventes do planeta micróbios, fungos, plantas,
animais. Elas podem ser decompostas em menores unidades moléculas,
átomos, partículas –, mas, de acordo com a bióloga Lynn Margulis, são elas “a
menor e mais simples unidade material capaz de gerir o processo de
autofazimento que caracteriza a vida” (Margulis, 2017)4. As células guiam este
processo da vida, sempre trocando com o meio, crescendo e se reproduzindo:
A vida é um processo, um modo de se comportar. E as células guiam este
processo, se alimentando, trocando, excretando, crescendo… O que é o
processo? Um processo de se fazer componentes do meio ambiente
são recolhidos e se movem, mudam quimicamente, para fazer mais e
crescer. A vida está sempre se expandindo, fazendo mais de si mesma,
autopoiesis, autocriação. O próprio sistema se faz, isso que é vida. Qual a
menor e mais simples unidade material que pode fazer isso? É uma
célula. Não existe nada mais simples do que uma célula com essa
capacidade de fazer mais e crescer, fazer mais e crescer (Margulis, 2017).
Segundo o biólogo molecular Bruce Lipton (2007), a estrutura celular envolve
4 As citações Margulis, 2017 são extraídas do filme
SYMBIOTIC EARTH: How Lynn Margulis rocked the boat and
started a scientific revolution
. Direção: John Feldman. Produção: Bullfrog Films. Estados Unidos:
Hummingbird Films, 2017.
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uma tecnologia tão avançada que a ciência ainda não a destrinchou totalmente.
Cada célula eucarionte, isto é, que contém núcleo e DNA, como as nossas, tem os
mesmos mecanismos bioquímicos que o nosso corpo como um todo e realiza as
mesmas atividades que nós realizamos para garantir a sobrevivência: respiração,
ingestão, digestão e eliminação de alimentos, polaridade eletromagnética,
circulação de fluidos, reprodução, produção de substâncias especializadas,
responsividade, sensibilidade, vibração, ritmo, limite distinguindo experiências
internas e externas, movimento em si mesma e movimento de si mesma no
espaço, ressonância, comunicação com outras células, instinto de sobrevivência,
memória, hábito, adaptabilidade, capacidade de tomar decisões, habilidade de
responder ao seu ambiente, nascimento, crescimento, maturidade e morte, graus
de saúde, consciência de si (Cohen, 2015, p. 281).
Ao armazenarem a memória desses processos vividos ao longo de toda a
evolução filogenética, desde os organismos unicelulares boiando no oceano até os
seres pluricelulares complexos como nós, as células transportam uma história
celular pré-humana, uma ancestralidade comum que partilhamos com os seres
vivos do planeta. Nos organismos unicelulares, o oceano era o corpo e o ambiente.
Nos organismos pluricelulares a água ainda é corpo, o nosso mar interno,
sustentáculo da vida celular. Somos cerca de 60 % de água, e dois terços de toda
essa água está dentro das células. O outro terço compõe a matriz celular.
Ao longo desta trajetória no tempo, as células atravessaram processos de
adaptação e mutação, desenvolvendo funções especializadas e, a partir disso,
criando comunidades celulares diferenciadas, que vieram a se tornar os diferentes
tecidos de um corpo multicelular tecido ósseo, tecido muscular, tecido nervoso,
e por vai. As células de um mesmo tecido ou sistema compartilham certos
padrões de comportamento, qualidades particulares de consciência, de
percepção, de atenção, de sensibilidade e de propósito. Pode parecer estranho
falar de consciência celular, mas é evidente que células e outros organismos
unicelulares, que foram capazes de sobreviver bilhões de anos, se adaptando e se
transformando para chegar até aqui hoje são dotadas de consciência. Estamos
falando de uma inteligência que diz respeito às capacidades de sentir e de tomar
decisões, de se mover para buscar segurança ou nutrição por exemplo. Habilidades
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essenciais para a sobrevivência guiaram e foram guiadas pelas interações
primárias dos organismos unicelulares com o ambiente e seguem acontecendo
em organismos complexos como nós, em cada um dos microrganismos que nos
constituem. Estas relações básicas de interação e troca com o ambiente podem
ser consideradas como pensamentos físicos, que são vagos e claros ao mesmo
tempo. Um pensamento que seria “um tipo de atividade celular (Margulis et.al,
2020, p.17).
Os processos de percepção, consciência, especulação e memória se
originaram no mundo microcósmico invisível dos nossos ancestrais
bacterianos, e hoje se configuram, em seres multicelulares complexos
como nós, como manifestações em larga escala da ecologia comunal de
pequena escala de antigos organismos unicelulares (Margulis et.al, 2020,
p. 19).
Estes mecanismos nos dão pistas de como uma inteligência que atravessou
tantos bilhões de anos continua agindo em nós para a manutenção da vida.
Pensando em termos evolutivos, parece evidente que células e outros
microrganismos sejam tão habilidosos e inteligentes, já que os seres unicelulares
foram a primeira e única forma de vida do planeta durante 2,75 bilhões de anos
(Lipton, 2007, p. 21):
Células inteligentes têm vontade própria e um propósito de vida.
Procuram ambientes que sejam adequados à sua sobrevivência e evitam
todos os que possam ser tóxicos e/ou hostis. Da mesma maneira que
nós, humanos, fazemos, analisam as centenas de estímulos que recebem
do microambiente que habitam para selecionar as respostas
comportamentais mais adequadas e garantir sua sobrevivência. As
células também são capazes de aprender com as experiências que
vivenciam em seu ambiente e de criar uma espécie de memória que é
passada aos seus descendentes.
Esta perspectiva não confere às células, bactérias e fungos o papel de
detentoras e transmissoras de um saber ancestral, através de milhares de
gerações de seres pensantes, mas também conecta todos os viventes celulares –
homens, animais e plantas e fungos – em uma relação de continuidade, igualdade
e codependência.
Mas sentir este agenciamento celular não faz parte da cartilha epistemológica
e perceptiva ocidental moderna. Aprendemos sobre as células nas aulas de
biologia da escola, sabemos que somos feitas de células, mas não “sentimos” que
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somos feitas de células, não somos estimuladas a entrar em contato com as
células enquanto organismos vivos.
Grosso modo
, as células são estudadas da
mesma forma que se estuda o corpo humano e o meio ambiente – separados de
nossa subjetividade.
Dissecação, cartesianismo e corpo-máquina
Esta separação entre a matéria do corpo e a subjetividade, ligada à esfera do
espírito, embora tenha origens remotas na cultura greco-cristã, encontrou sua
grande legitimação na filosofia cartesiana do século XVII. O filósofo e matemático
francês René Descartes (1596-1650), considerado o pai do racionalismo moderno,
foi o idealizador da filosofia mecanicista que selou a divisão do corpo em duas
instâncias separadas e opostas: a
res extensa
, a realidade material extensiva e
inanimada do corpo, e a
res cogitans
, a realidade imaterial do pensamento e da
alma, instituindo “uma divisão ontológica entre um domínio considerado
puramente mental e outro, puramente físico” (Federici, 2017, p. 249). Na sua obra
Tratado do Homem
(1664), Descartes se empenhava em separar, categorizar e
classificar hierarquicamente todos os componentes da mecânica corporal,
tecendo as bases do conceito de um corpo autômato: “Desejo que considerem
que todas as funções que atribuí a esta máquina [...] se deduzam naturalmente [...]
da disposição de seus órgãos tal e como os movimentos de um relógio ou de
outro autômato se deduzem da organização dos contrapesos e rodas” (Descartes,
2009, p.453). E em
Meditações
(1641), ele declara: “Eu não sou esta reunião de
membros que se chama corpo"(Descartes, 2023, p.32), evidenciando o divórcio
entre pessoa e corpo, o qual passa a ser entendido como “um
continuum
mecânico de matéria que a vontade pode contemplar, [...] como objeto próprio de
dominação” (Federici, 2017, p. 254). Descartes acreditava que a vontade era a força
necessária para a espécie humana “se libertar do determinismo corpóreo e
instintivo” (Federici, 2017, p. 273) do corpo.
O cartesianismo abriu o caminho para o iluminismo, para desenvolvimento
da filosofia moderna e para a revolução científica, relegando o corpo ao domínio
da matéria inanimada, enquanto a alma estaria mais próxima do divino, seria como
um sopro animador da engrenagem corporal. Esta concepção cindida da
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subjetividade e está na base da edificação dos saberes biomédicos da cultura
ocidental. O conceito de anatomia expressa esta separação, como atesta a
etimologia da palavra que significa “cortar em partes". Os saberes da anatomia se
fundaram a partir de práticas de corte e separação das partes a dissecação de
cadáveres. A filósofa e escritora feminista Silvia Federici chama a atenção para a
relação entre o desenvolvimento dos saberes anatômicos e da filosofia
mecanicista:
é da revolução epistemológica realizada pela anatomia no século XVI que
surge o paradigma mecanicista. O corte anatômico rompe o laço entre
microcosmos e macrocosmos, e apresenta o corpo tanto como uma
realidade separada quanto como um elemento de produção: uma fábrica
(Federici, 2017, p.251).
A partir de meados do século XVI, as práticas de dissecação alçaram um
grande status nos centros urbanos da Europa. Proliferaram os anfiteatros de
anatomia nas escolas de medicina e a dissecação pública de cadáveres se tornou
um entretenimento popular, com ingressos mais caros do que os de uma peça de
teatro, apresentando um espetáculo da desmontagem do corpo, geralmente dos
cadáveres de criminosos e indigentes mortos. Havia música, comida e bebida, e
uma plateia ávida para acompanhar o feito de uma equipe de médicos-
professores-dissecadores encarregados de cortar, separar, categorizar e nomear
as partes desses corpos. O espetáculo da dissecação se alinhava diretamente com
a filosofia mecanicista que se popularizava à época, segundo a qual o corpo era
concebido como uma engrenagem sujeita à leis da mecânica, podendo ser
desmantelado como uma máquina e separado em partes.
O corte do dissecador fundamentou o modo como é compreendida e
representada a matéria corporal nas sociedades ocidentais uma engrenagem
feita de partes separadas e autônomas, e não é exagero afirmar que a prática de
dissecação é um dos alicerces da epistemologia moderna científica, como sugere
Don Johnson (1992, p. 12):
A racionalidade ocidental é como o corte anatômico, o processo de
entendimento científico é como a dissecação. Os objetos do
entendimento são considerados como inanimados, isentos das
chamadas qualidades subjetivas mais apropriadas às almas dos
observadores.
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Federici também ressalta que o ideal de progresso científico se articulava ao
projeto do Estado capitalista nascente de impor seu controle sobre a força de
trabalho, fazendo com que “a primeira máquina desenvolvida pelo capitalismo
tenha sido {foi} o corpo humano e não a máquina a vapor, nem tampouco o relógio”
(Federici, 2017, p. 268). O entendimento do corpo como uma máquina aconteceu
concomitantemente a um novo conceito de pessoa que emergiu no centro da
imaginação política e filosófica do século XVII com a reforma protestante e o
surgimento da burguesia mercantil.
Na tentativa de formar um novo tipo de indivíduo, a burguesia
estabeleceu uma batalha contra o corpo, que se converteu em sua marca
histórica. De acordo com Max Weber, a reforma do corpo está no coração
da ética burguesa porque o capitalismo faz da aquisição “o objetivo final
da vida”, em vez de tratá-la como meio para satisfazer nossas
necessidades; para tanto, necessita que percamos o direito a qualquer
forma espontânea de desfrutar a vida (Federici, 2017, p.241).
Esse projeto de subjugação e alienação do corpo encontrou no pensamento
mecanicista de Descartes uma fundamentação teórica profícua. A doutrina
cartesiana “interpretava muito bem os requerimentos da disciplina do trabalho
capitalista”, promovendo o cultivo de uma “tecnologia humana do autocontrole”
(Federici, 2017, p.273). Essa concepção de corpo também forneceu uma
justificativa formal “a licença cartesiana” (Margulis et al., 2020, p.13) para que
o homem, acreditando ser o receptor do sopro divino, a própria imagem e
semelhança de Deus, se autoproclamasse o centro do universo e ser superior a
todas as criaturas da Terra, se dando o direito de arbitrar sobre toda e qualquer
natureza:
A filosofia mecanicista contribuiu para incrementar o controle da classe
dominante sobre o mundo natural, o que constitui o primeiro passo e
também o mais importante no controle sobre a natureza humana.
Assim como a natureza, reduzida à “Grande Máquina”, pôde ser
conquistada e (segundo as palavras de Bacon) “penetrada em todos seus
segredos”, da mesma maneira o corpo, esvaziado de suas forças ocultas,
pôde ser “capturado em um sistema de sujeição” em que seu
comportamento pôde ser calculado, organizado, pensado tecnicamente
e “investido de relações de poder” (Federici, 2017, p.253).
A lógica cartesiana, ao mesmo tempo que amalgamou o corpo à natureza,
realizou a separação entre a natureza e a alma. Nessa operação, corpo e natureza
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são totalmente destituídos de sua inteligência sensível, rompendo definitivamente
com uma concepção animista, a qual “não admitia a separação entre a matéria e
o espírito, e deste modo imaginava o cosmos como um organismo vivo [...]”
(Federici, 2017, p.257). A ligação entre o microcosmo corporal e o macrocosmo
celestial se apoiava em uma concepção tempo-espacial cíclica incompatível com
a disciplina do trabalho capitalista emergente. Uma aliança entre a doutrina
cartesiana, a Igreja renascentista, a burguesia mercantil e o Estado capitalista
emergente empreendeu, então, uma campanha de terror contra a noção de corpo
como um organismo vivo conectado com as forças do universo.
As mulheres foram alguns de seus alvos principais, sendo perseguidas como
bruxas, e privadas das potências vitais e eróticas de seus corpos, tornando-se as
grandes vítimas do genocídio empreendido em toda a Europa e em suas colônias
recém-conquistadas, em nome da necessidade de domesticação civilizatória do
corpo. As mulheres sexualmente livres constituíam uma ameaça à ordem e ao
controle sociais instituídos por esses poderes. A sexualidade feminina foi
exorcizada como “luxúria insaciável”, destituindo as mulheres de suas autoridades
eróticas vitais e também de seus saberes corporais ancestrais.
O surgimento do método científico destituiu por fim o protagonismo feminino
dos espaços de cuidado e cura individual e comunitário, contribuindo para a
continuidade do movimento de caça às bruxas durante mais dois séculos (Federici,
2017, p.366). Curandeiras populares e parteiras, detentoras de conhecimentos
tradicionais sobre a natureza e o corpo, foram queimadas nas fogueiras, acusadas
de bruxarias, “expropriadas de um patrimônio de saber empírico, relativo a ervas
e remédios curativos, que haviam acumulado e transmitido de geração a geração”(
Federici, 2017, p. 364).
Neste período, a Igreja legitimou aos físicos e estudiosos homens a
exclusiva reivindicação ao direito de curar, denunciando curas não
profissionais como heresias. De acordo com o
Malleus Maleficarum
5, “se
uma mulher ousasse curar sem ter estudado, ela era uma bruxa e deveria
morrer”. Mas obviamente não haviam meios de acesso para as mulheres
estudarem (Ehrenreich; English, 1973, p. 35 apud Johnson, 1992, p. 146).
5
Malleus Maleficarum
[O martírio das bruxas], publicado de 1486, que, de acordo com uma nova bula papal
sobre a questão, a
Summis Desiderantes
(1484) de Inocêncio VIII, afirmava que a Igreja considerava a bruxaria
como uma nova ameaça (Federici, 2017, p. 296).
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As tecnologias que haviam sido desenvolvidas pelas mulheres em todo o pré-
renascimento, cuidando umas das outras e da comunidade a partir da observação
direta dos ciclos da natureza, do uso de ervas e de leituras corporais, configuravam
uma autoridade feminina sobre os domínios do corpo e da saúde. Estes saberes
ameaçavam o método científico emergente, ancorado em uma “tecnologia da
alienação” (Johnson, 1992, p. 143), baseada em um “empirismo mediado, isto é, em
dados recebidos através de instrumentos e codificados em linguagem
matemática”( Johnson, 1992, p. 143), cujo protótipo era a física de Galileu e Newton,
baseada na observação dos astros, do mundo que escapa à percepção dos
sentidos. O saber científico estava nas mãos dos especialistas, aqueles que
detinham “os meios abstratos de reduzir informação sensória e fascinação com
instrumentação elaborada” (Johnson, 1992, p. 143). Radicalmente oposta a esta,
estava a “tecnologia da autenticidade” (Johnson, 1992, p. 143) que se baseava no
empirismo imediato, produzindo um outro modelo de autoridade: “especialistas
são aqueles que prestam atenção, que abrem os olhos. As informações lhes são
prontamente acessíveis aos sentidos” (Johnson, 1992, p. 143), demandam tempo e
esforço dedicado. Por serem as grandes detentoras desses saberes, as mulheres
foram violentamente perseguidas e silenciadas em toda a Europa a partir do
renascimento e do advento do racionalismo científico. A pesquisadora
ecofeminista Carolyn Merchant afirma que o paradigma social da época substituiu
“uma visão orgânica do mundo – que via na natureza, nas mulheres e na terra as
mães protetoras por uma outra que as degradava à categoria de ‘recursos
permanentes’, retirando qualquer restrição ética à sua exploração” (Merchant,
1980, p. 127 e segs. apud Federici, 2017, p. 343.). A autora articula a caça às bruxas
à destruição do meio ambiente, chamando a atenção para o fato de a história da
modernidade ter sido construída sobre o abuso de recursos, tanto na exploração
capitalista do mundo natural quanto no genocídio e na exploração de mulheres,
de povos originários das Américas e África.
Se é verdade que as tecnologias da alienação se sobrepuseram às tecnologias
da autenticidade nos últimos 500 anos, separando o pensamento do corpo, a
cultura da natureza, o discurso da matéria, será que não é chegado o momento,
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como sugere a aranha do conto de Despret, de reconectar com nossos corpos,
habilitando nossos receptores magnéticos?
Educação somática
A educação somática se refere a um campo de conhecimentos e
métodos
corporais e terapêuticos
que se dedicam a estudar o "soma", palavra de origem
grega recuperada pelo filósofo Thomas Hanna
com o sentido de corpo vivo
enquanto experiência de si, em contraposição a uma ideia de
corpo objeto
inanimado e morto.
Foi Hanna quem nomeou este campo de estudos nos anos
1970, concebendo-o como “a arte e a ciência dos processos de interação
sinergética entre consciência, biologia e meio ambiente” (Hanna apud Pizarro,
2020, p.189), inaugurando assim
uma nova perspectiva para os estudos do
corpo.
Existem centenas de abordagens somáticas, as mais diversas e com as mais
variadas metodologias e objetivos, entre as quais algumas mais populares no
Brasil, tais como a Técnica de Alexander, o Método Feldenkrais, os Fundamentos
de Bartanieff, a Ginástica Holística, a Eutonia, a Metodologia Angel Vianna e o Body-
Mind CenteringSM, sendo esta última objeto de minha pesquisa de doutorado. O
que todas essas metodologias tem em comum é uma abordagem do corpo
enquanto organismo vivo em troca com o meio e em contínua transformação.
Segundo essa perspectiva, é possível enumerar alguns princípios gerais do campo:
a valorização da autoridade somática (ou seja, a validação da experiência em
primeira pessoa, propondo que o modo como o corpo percebe a si mesmo
importa); a atenção dada à globalidade do gesto e à indissociabilidade entre corpo
anatômico, cinestésico, emocional, simbólico, cognitivo e espiritual; uma
perspectiva holística do sujeito em oposição a uma perspectiva mecanicista onde
o aprendizado se pela imitação e pela repetição; a centralidade dos trabalhos
sobre a percepção, entendida como o lugar privilegiado das trocas com o meio-
ambiente; uma visão do potencial de transformação e de ampliação das
capacidades corporais e subjetivas a partir do trabalho sobre o movimento em
suas dimensões perceptiva, proprioceptiva e cinestésica (Bardet; Clavel; Ginot,
2019).
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As práticas somáticas dão especial atenção, portanto, ao soma, isto é, ao
fenômeno corporal quando experienciado em primeira pessoa, em contraposição
ao corpo percebido de fora, de um ponto de vista de terceira pessoa.
[...] quando um soma se vê no espelho, ele vê um corpo uma estrutura
objetiva em terceira pessoa. Mas o que é este mesmo corpo quando
observado de dentro, de uma perspectiva somática? [...] De uma
perspectiva de primeira pessoa, o corpo-soma é um corpo de funções.
Do ponto de vista de outra pessoa, sou um corpo sólido: uma entidade
de terceira pessoa. Do meu ponto de vista sou um eu vivo, uma entidade
em primeira pessoa. Esta é uma percepção bimodal que todos os
humanos têm de si mesmos. [...] Sou ambos, função e estrutura, e se eu
permitir que o ponto de vista objetivo, na terceira pessoa, prevaleça,
posso me considerar não mais do que um ser desamparado e capturado
por uma estrutura que não sou eu e que não posso influenciar (Hanna,
1986).
Soma e corpo são experiências distintas porque partem de aparatos
específicos de observação, que são mais do que apenas pontos de vista diferentes;
eles interferem nas fronteiras e características da corporeidade. Os dispositivos de
observação não estão separados dos fenômenos observados, e, portanto, quando
mudamos o dispositivo, o fenômeno também se transforma.
Para sentir o corpo em primeira pessoa é preciso direcionar a atenção para
ele, mas não de forma racional e sim com uma qualidade de atenção que é sediada
no corpo, que tem tanto a capacidade de focalizar um aspecto específico, dentro
ou fora do corpo, quanto de atentar para uma sensação geral. Acionar esta atenção
corporalizada, conhecida como
awareness
, é uma das habilidades fundamentais
das práticas somáticas. Bonnie Bainbridge Cohen sugere que a essência da
awareness
é a ressonância (Cohen, 2018, p. 9), este fenômeno físico de sintonia
entre padrões vibratórios. Associar a ressonância à
awareness
indica que esta é
uma qualidade de atenção que passa por sentir os campos vibratórios e ser capaz
de sintonizar com eles, ressoar com eles. Prestar atenção, observar e tomar
consciência de algo, em termos de
awareness
, é entrar em sintonia vibratória com
esse algo.
Na realidade, a
awareness
está sempre em atividade em nosso corpo, mesmo
quando não a direcionamos voluntariamente, pois ela organiza os processos
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somáticos, regulando as relações do organismo com o ambiente em torno, para
manter a vida. É uma espécie de consciência de base, ancorada no corpo, atenta
a toda experiência: “Nós a possuímos por alguns momentos, mas ela nos possui
quase o tempo todo e nos guia” (Hanna, 1987-88). Esta atentividade está presente
em cada célula, que é como “um arquétipo primordial do soma” (Hanna, 1987-88),
com sua membrana definindo sua individualidade, separando-a do ambiente e, ao
mesmo tempo, criando uma interface com ele, fundamental para a sobrevivência
da célula. No caso do corpo humano como um todo, “é a
awareness
que, assim
como as membranas celulares, abre ou fecha nosso processo para o mundo,
permitindo ou inibindo o que entra e sai, organizando as atividades sensório-
motoras” (Hanna, 1987-88). As abordagens somáticas praticam a habilidade de
escutar esta consciência de base, pois, como propõe Cohen, "todas as células do
corpo dão feedback, e nós podemos treinar nossa escuta para ouvi-lo" (Cohen,
2021a).
É interessante observar que essas práticas e suas tecnologias baseadas no
empirismo imediato e nas habilidades de ver, sentir, ouvir, tocar e perceber, se
parecem muito com as artimanhas consideradas bruxarias nos séculos XVI e XVII.
É também curioso observar a predominância absoluta de mulheres entre as
fundadoras e praticantes de métodos somáticos. E isso não é à toa, pois,
[...] [a] bruxa era uma empiricista: ela se apoiava nos seus sentidos mais
do que em fé ou doutrina, acreditava em tentativa e erro, causa e efeito.
Sua atitude não era religiosamente passiva, mas ativamente investigativa.
Ela confiava na sua habilidade de achar caminhos para lidar com a
doença, com a gravidez e o parto… Foram as bruxas que desenvolveram
um entendimento extenso sobre ossos e músculos, ervas e drogas, [...]
(Ehrenreich; English, 1973, p. 30, 33 apud Johnson, 1992, p. 146).
Johnson sugere que as práticas somáticas possibilitam o retorno ao que um
dia já foi óbvio – “o reconhecimento da autoridade da percepção não mediada por
instrumentos e pela matemática” (Johnson, 1992, p. 150). Partindo da aposta de
que temos a possibilidade de ter um acesso mais imediato aos nossos corpos do
que cientistas e seus instrumentos de medição, a “bruxaria” das somáticas estaria
em “ensinar pessoas a se curarem reconectando-se com seus corpos” (Johnson,
1992, p.151), muitas vezes de formas bastante simples, como tocando ou
convidando a prestar a atenção em uma determinada parte do corpo a sintonizar
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com as suas correntes vibratórias. As somáticas reabilitam as artes de sentir o que
acontece numa escala muitas vezes microscópica e imperceptível, e pressupõe o
desenvolvimento de uma espécie de erudição perceptiva. Investir na valorização
do sentir é um contraponto às tecnologias de alienação do corpo-máquina que
remontam ao advento do mecanicismo e do racionalismo científico. As políticas
de cafetinagem do sistema colonial capitalístico (Rolnik, 2018) seguiram
desencorajando a escuta do saber-do-corpo, desautorizando sua sabedoria e
promovendo relações de uso e abuso dos corpos humanos e não humanos.
Nas práticas somáticas, a abertura para a profundidade do sentir é uma chave
para a uma dimensão mais potente e vital da presença. uma legitimação da
autoridade somática sobre os processos sensíveis que atravessam o corpo em
primeira pessoa. Cultivar esta habilidade de prestar atenção como o corpo todo
talvez seja, como afirmou a aranha do conto de Despret, uma necessidade básica
em tempos onde as sensibilidades estão em vias de extinção. Ou ainda, como
preconiza a
antropóloga Anna L. Tsing, uma habilidade fundamental para a
vida nas ruínas do capitalismo (
Tsing, 2022, p.59
). Para Tsing, o pensamento
do século XX esteve tão ocu
pado com a presunção do homem moderno,
imerso em “uma marcha para frente em direção à modernização, à
democracia, ao crescimento, à ciência e à
esperança
"(
Tsing, 2022
, p.64),
que não desenvolveu a capacidade de notar projetos divergentes de
fazer mundos que não se encaixavam no ritmo do progresso. Então hoje
talvez seja
necessário treinar a habilidade de pôr a atenção para sentir os
micromovimentos que acontecem em um nível vibratório e tomar
consciência dos padrões de organização do corpo e do mundo. Aprender a
escutar, em uma escala muito sensível, o que e como nos afetamos, e
como afetamos os outros seres com os quais convivemos. É hora de
nos
ocuparmos das artes de notar outros modos de vida, tanto dentro
quanto fora de nós. Por exemplo, os modos de vida e o comportamento
das comunidades celulares e dos microrganismos simbióticos que nos
habitam, ou os modos de vida de plantas, fungos e animais, ou os modos
de vida de comunidades humanas pré-industriais
alternativas à premissa
da autossuficiência moderna
.
É possível dançar nas paisagens degradadas
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do antropoceno abandonando a lógica extrativista por uma lógica da
contaminação, se deixando afetar e transformar pelos encontros. É a
inteligência
do corpo, enquanto um “condomínio de organismos vivos”
6
,
que vai farejando somaticamente as outras formas de vida que ressoam
com ele. A arte de notar
é uma habilidade do corpo, desde as células, de
sentir os campos vibratórios que nos cercam. Habilidade fundamental em
tempos
onde as sensibilidades estão ameaçadas,
como disseram as aranhas
do conto de Despret.
Práticas de escuta
Finalizo esse ensaio compartilhando algumas práticas de escuta que
desenvolvi e utilizo em minhas atividades pedagógicas e artísticas, e que
contribuem para aprimorar as artes de notar a presença dos campos
vibratórios que compõem os corpos e seus ambientes. São práticas breves
e simples que podem ser feitas regularmente como um modo de estimular
a consciência e a acuidade da
awareness
. Também as chamo de "práticas
cotidianas para escutar o saber celular":
-
Esfregar uma mão na outra com vigor até sentir que produziu calor.
Separar as mãos lentamente e trazer sua atenção para qualquer coisa que sinta
acontecer entre elas. Se interessar por esta coisa.
- Segurar, com uma das mãos, o punho do braço oposto. Trazer a atenção
para o que a mão que segura o punho sente, seja o volume, a temperatura, se
interessar por esta sensação por alguns minutos. Observar que enquanto a mão
toca o punho, o punho também toca a mão. E então colocar a atenção no que o
punho sente por mais alguns minutos. Experimentar mover os bois braços sem
separar mão e punho, como se fosse um
pas-de-deux
em que ambos comandam
ao mesmo tempo o movimento. Para finalizar, soltar muito lentamente a mão do
punho e o punho da mão. Trazer a atenção para sentir em que medida a sensação
da mão que tocou é diferente da sensação da outra mão, e qual a diferença de
6 Antônio Nobre em conversa com Ailton Krenak e Fabio Scarano no Ciclo Regenerantes de Gaia, “Regenerando
a partir dos sonhos”. Selvagem Ciclo de Estudos, 7 jun. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/
watch?v=gGcjWtOzIe4.
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sensação entre o punho tocado e o punho.
- Tocar em alguma parte do corpo. Ceder o peso da mão. Deixar que a
mão afunde lentamente como um submarino, sem força, cedendo cada vez
mais. Perceber o vínculo entre a mão que toca e o local tocado. Ficar presente no
encontro entre a mão que toca e a parte que é tocada, até sentir alguma coisa
acontecer a partir desse toque. Qualquer coisa. Observar a natureza do
acontecimento, se é uma sensação, um pensamento, uma imagem, uma emoção.
Se estiver com alguém, experimentar tocar um ao outro.
- Na natureza ou dentro de casa, fechar os olhos. Mover-se pelo espaço
de olhos fechados a partir de qualquer vibração ou sinal que perceba no seu corpo
ou no espaço. Confiar nos sinais.
- Encontrar com alguma obra de arte ou pessoa, bicho, vegetação,
paisagem, arquitetura que te afete. Pode ser de qualquer natureza. Sem querer
saber por que ela te afeta, trazer sua atenção, durante a afecção, para o seu corpo.
Ficar lá até perceber em que parte do seu corpo você tem alguma sensação que
te chama a atenção. Ficar com a sensação, se interessar em indagar a sensação,
em “surfar” a sensação. Sem querer nomeá-la ou entendê-la. Ficar com a
sensação pelo tempo que for possível mantê-la presente.
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Recebido em: 20/09/25
Aprovado em: 29/12/25
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
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Revista de Estudos em Artes Cênicas
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