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Teatro, Música e Memória no
Teatrosamba do
Caixote
José Batista (Zebba) Dal Farra Martins
Maria Adelaide Pontes
Claudia Pacheco Simões
Para citar este artigo:
MARTINS, José Batista (Zebba) Dal Farra; PONTES, Maria
Adelaide; SIMÕES, Claudia Pacheco. Teatro, Música e
Memória no
Teatrosamba do Caixote
.
Urdimento
Revista
de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 55, ago.
2025.
DOI: 10.5965/1414573102552025e0113
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Florianópolis, v.2, n.55, p.1-33, ago. 2025
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Teatro, Música e Memória no
Teatrosamba do Caixote
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José Batista (Zebba) Dal Farra Martins2
Maria Adelaide Pontes3
Claudia Pacheco Simões4
Resumo
Caixa mnemônica
é um conceito utilizado por Aleida Assmann para se referir a um espaço
portátil de memórias. Em seu complexo papel de fronteira entre cena e público, além de
banqueta para músicos e atores, o caixote, impregnado de memórias, é também um
caixote
mnemônico,
recipiente das vivências e processos do
Teatrosamba do Caixote.
Engenho de
teatro na roda de samba, esta atividade concebida pelo
Grupo dos 7
compôs o
Projeto Cidade
Dentro Cidade Fora,
implantado em espaços da Zona Norte de São Paulo, entre 2001 e 2004.
O artigo vasculha os conteúdos deste caixote de memórias para traçar um itinerário
expositivo do percurso do
Teatrosamba do Caixote
nesse período.
Palavras-chave:
Teatro. Música. Memória. Arquivos teatrais. G7.
Theater, Music and Memory in the
Teatrosamba do Caixote
Abstract
Mnemonic box
is a concept used by Aleida Assmann to refer to a portable space of
memories. In its complex role as a boundary between scene and audience, as well as a stool
for musicians and actors, the box, imbued with memories, is also a
mnemonic box
, a
container of the experiences and processes of the
Teatrosamba do Caixote
. A theatrical
device within the samba circle, this activity conceived by the
Grupo dos 7
was part of the
C
ity in City Out
Project
, implemented in spaces in the North Zone of São Paulo between 2001
and 2004. This article explores the contents of this memory box to outline an expository
itinerary of the
Teatrosamba do Caixote
’s journey during that period.
Keywords:
Theater. Music. Memory. Theatrical Archives. G7.
Teatro, Música y Memoria en el
Teatrosamba do Caixote
Resumen
Caja mnemónica
es un concepto utilizado por Aleida Assmann para referirse a un espacio
portátil de memorias. En su complejo papel como frontera entre la escena y el público,
además de banco para músicos y actores, el cajón, impregnado de recuerdos, es también
una
caja mnemónica
, recipiente de las vivencias y procesos del
Teatrosamba do Caixote
.
Ingenio teatral en la rueda de samba, esta actividad concebida por el
Grupo dos 7
formó
parte del
Proyecto
Ciudad Dentro Ciudad Fuera
, implementado en espacios de la Zona Norte
de São Paulo entre 2001 y 2004. El artículo explora los contenidos de este cajón de memorias
para trazar un itinerario expositivo del
Teatrosamba do Caixote
en ese período.
Palabras clave
: Teatro. Música. Memoria. Archivos teatrales. Grupo dos 7.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Carolina Martins. Bacharelado em Filosofia pela
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
2 Livre-docência pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutorado pela Universitat de Barcelona (UB) Espanha.
Doutorado e Mestrado em Engenharia de Estruturas pela USP. Docente e pesquisador sênior na Graduação e Pós-
Graduação em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo (USP). Pesquisador associado do
Projeto Arquivos Sonoros de
Teatro
, financiado pela Fapesp
.
dalfarra@usp.br
https://lattes.cnpq.br/1202945496384216 https://orcid.org/0000-0002-1165-1293
3 Doutorado em Estética e História da Arte pela Universidade de São Paulo (USP). Mestrado em Artes Visuais pela
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Graduação em Educação Artística, com Habilitação em
Artes Cênicas, e também em Artes Visuais pela UNESP. adelaidepontes8@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/8116352321995616 https://orcid.org/0000-0003-3359-4856
4 [Maria Simões] Cantora, atriz, figurinista e professora, sua principal formação se engendra a partir do contato profundo
com a atriz e diretora Myrian Muniz. Compôs o núcleo artístico-pedagógico do
G7,
na implantação do
Projeto Cidade
Dentro Cidade Fora
, no Teatro Alfredo Mesquita e no
estação7.
diasimoes@gmail.com
https://orcid.org/0009-0001-8665-6988
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Território. O Grupo dos 7 e o Projeto Cidade Dentro Cidade Fora
No segundo semestre de 2001, a Secretaria Municipal de Cultura, na gestão
de Marta Suplicy, propôs o Edital
Cidadania em Cena,
como forma de
financiamento para a ocupação dos teatros municipais de bairros da cidade.
Compartilhando o espaço com a
Cia. Ocamorana
, o
Grupo dos 7
(G7)
venceu o
edital para o Teatro Alfredo Mesquita, localizado na Praça Santos Dumont, com o
Projeto Cidade Dentro Cidade Fora5.
A proposta visou o estímulo a uma atitude
crítica e historicizante, sobre as relações sociopolíticas no espaço urbano, baseada
na intersecção cênica de três cidades: do passado, no contato com memória e
história; do presente, ancorada no cotidiano; e do futuro, cidade de projetos,
sonhos e utopias. Tratava-se de desvendar estas cidades na concretude das ruas,
praças e avenidas, definidas através dos espaços de circulação de participantes
de várias atividades gratuitas, enfeixadas nas
Oficinas de Teatro, Música e Memória
,
nas quais estimulava-se o contato plural étnico, etário e social; na montagem
Almannaco Bananére
, visão poética delirantemente macarrônica da São Paulo do
início do século XX e nas
Rodas do Samba do Mesquita,
logo transformadas em
Rodas do
Samba do Caixote.
Segundo Celso Frateschi, Secretário Municipal de
Cultura na época, a iniciativa consistia também em um ensaio para a implantação
da Lei de Fomento ao Teatro, aprovada através de um intenso debate no âmbito
do
Movimento Arte Contra a Barbárie.
Contemplado em 2002 e 2003 pelo
Programa Municipal de Fomento Teatral
para a Cidade de São Paulo
, em sua primeira e terceira edições, o
G7
criou um
polo de reflexão, produção e difusão de teatro e música, situado na rua Alfredo
Pujol, na Zona Norte da Capital: o
estação7.
A reforma de um galpão de uma antiga
fábrica de sapatos deu origem a um espaço múltiplo que, através da confecção
em madeira6 de duas arquibancadas e quatro bancos, possibilitava moldar
qualquer configuração cênica, conforme os requisitos poéticos e estéticos
5 No Teatro Alfredo Mesquita, compunham o
G7
: a atriz e cantora Claudia Pacheco, a atriz Adelaide Pontes, os
atores Divino Silva e Antonio Ginco, o iluminador Cacá D’Andretta e o músico, ator e encenador Zebba Dal
Farra. No
estação7,
o grupo agregou os atores Wilson Justino e Ubirajara Veneziane.
6 A obra foi fruto da notável habilidade de um marceneiro da região, que transformou em móveis o jatobá dos
pisos do mezanino existente no espaço. Após o encerramento do
estação7,
em 2005, as arquibancadas
foram doadas para o
Tendal da Lapa,
espaço da Secretaria Municipal de Cultura.
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requeridos. O
estação7
torna-se um centro de encontro de pessoas interessadas
em desenvolver potenciais artísticos nas áreas do teatro e do samba, tendo como
tema o mote
Cidade Dentro Cidade Fora
: passado, presente e futuro na cidade
.
Todas as iniciativas realizadas no âmbito do projeto – montagens, oficinas, fóruns
e rodas de samba gravitavam em torno da vocação cardinal do
G7
de transitar
nos cruzamentos entre o teatro, a memória e a música, em especial o samba
paulistano, e uma opção por um
teatro épico
, revelado na postura crítica do grupo
e expresso nas formas do almanaque, da roda e da rapsódia. Amadurecidos nas
vivências e experiências públicas na ocupação do Teatro Alfredo Mesquita, sete
princípios sintetizavam a atuação do
G7
:
1. Prazer e diversão: o riso é fundamental.
2. Memória e História: espaços políticos de especulação crítica.
3. Música: ressonâncias, ritmos e sopros geram a polifonia cênica.
4. Teatro Épico: dar voltas em torno do tema.
5. Formas tradicionais: fricções contemporâneas.
6. Adaptabilidade cênica: configurações plurais de palco e plateia.
7. Aprendizes: essência do fenômeno teatral.
(G7, 2003).
Este artigo se dedica a traçar um itinerário expositivo dos arquivos de texto,
fotos e áudios de uma das atividades mais profícuas do
G7,
no período de
ocupação do Teatro Alfredo Mesquita e do
estação7
: o
Teatrosamba do Caixote.
Teatro é samba no teatrosamba
Prelúdio
Quinta-feira, 22 de novembro de 2001. Desaba na Zona Norte a primeira
grande tempestade da temporada. O palco do Teatro Alfredo Mesquita inundado
empurra a estreia da
Roda do Mesquita
para o saguão, ainda preservado da invasão
das águas. Caixotes de feira, esquecidos na coxia, delimitam um círculo que
instaura um novo palco: a disposição em arena permite plena escuta e visão de
quem quer que se sente na roda e dela participe. Em volta desse palco, vozes,
cavaquinho, surdo, violão e trombone. O
G77
. A chuva afastou o público, como se
essa noite se destinasse a sacralizar o batizado de uma roda de samba
7 Nessa noite, participaram da roda Rodrigo Campos (cavaquinho), Pitti (surdo), Bocato (trombone) e o núcleo
do
G7
: Claudia Pacheco, Adelaide Pontes, Divino Silva e Zebba Dal Farra.
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contaminada de teatro ou de uma roda de teatro possuída de samba. Não havia
roteiro. início e fim marcados pela evocação da memória, da tradição e do
poder de cura do samba. Antes, na afinação, o trombone talvez puxasse uma
gafieira,
Na Glória,
a lembrança assopra. Silêncio. o surdo na marcação. O
cavaco dá o tom no ritmo do samba. Sobre esta base rítmica e harmônica, a atriz
diz:
Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
"Se lágrima fosse de pedra
eu choraria"
Mas eu, Boca, como sempre perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram
Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente, por questão de estilo,
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado
Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra
E a roda toda canta:
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também
Bebadosamba, composição de Paulinho da Viola, prescreve o samba como elixir para
“oblívio de males e pausa nas aflições” (Hesíodo, 1995, p. 55), pelo chamado das canções
que se queimam na chama do cantar. Dessa forma, fala do próprio samba, dos
cancionistas irmãos de samba, das canções que brotam e correm pela memória, como
“um rio de murmúrios”: o samba reflete o samba.
Chama que o samba semeia
A luz de sua chama
A paixão vertendo ondas
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Velhos mantras de aruanda
Chama por Cartola, chama
Por Candeia…
Paulinho chama um panteão de gente do samba carioca. No final da canção, a roda
constituída chama Pixinguinha e Gastão Viana, no lundu africano Yaô, única gravação em
que se escuta a voz do saxofonista, feita em 1950: samba de iniciação, partido alto que
marca a passagem do samba do terreiro para o samba urbano.
Aqui kó no terreiro pelu adié...
Faz inveja pra gente que não tem muié
No jacutá de preto véio
Há uma festa de Yaô
Tem nega de Ogum, de Oxalá, de Iemanjá
A mucama de Oxóssi é caçador
Ora vira Nanã Nanã Burokô
Yô yô
No terreiro de preto véio iaiá
Ora vamos saravá
A quem meu pai?
Xangô
Paulinho da Viola. Bebadosamba
Pixinguinha e Gastão Vianna. Yaô.8
Eis as senhas de entrada e saída do rito: doravante, toda roda de samba será
aberta e fechada com estes dois chamados imbricados. Duas semanas depois da
noite tempestuosa, permanecem os caixotes. Rodrigo sugere:
Samba do Caixote
!
Primeiro Movimento. O
Samba do Caixote
no Teatro Alfredo Mesquita
[2001-2002]
Nada mais apropriado que o caixote no título. Numa das rodas seguintes, foi
lido e cantado o texto
Nas quebradas do mundaréu,
em que Plínio Marcos narra
histórias do samba de São Paulo, pela voz de três de seus maiores compositores:
Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Tuniquinho Batuqueiro.
Eu conto histórias das quebradas do mundaréu. de onde o vento
encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega
a pior. Que come da banda podre. Que mora na beira do rio e quase se
8 Arquivo sonoro. Acesso pelo código QR ou por este link. Elenco: Claudia Pacheco (voz), Rodrigo Campos
(cavaquinho), Alexandre Ribeiro (clarinete), Léo Moreira (percussão), Divino Silva e Newton de Souza (coro),
Zebba Dal Farra (violão e voz).
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afoga toda vez que chove. Que berra da geral sem nunca influir no
resultado. Falo dessa gente que transita pelos estreitos, escamosos,
esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão, que
apesar de tudo é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente
numa existência melhor na paz de Oxalá! (Marcos, 1974, faixa 1).
[…] O Geraldão [Filme] é filho de Dona Augusta, conhecida na Barra Funda
como Negra da Pensão. O Geraldão ia entregar as marmitas e logo ficou
conhecido na Barra Funda como Negrinho das Marmitas. Mas bolinho de
carne vinha sempre na primeira panela, por isso que ele engordou. Agora
o que eu quero contar e pesa na balança é que ele entrava na alameda
Glete pra entregar marmita e ouvia samba. Chegava no Jardim da Luz,
era só samba. Subia os Campos Elíseos, era só samba. Chegava no Largo
da Banana. Pouca banana e muito samba. Ali a curriola se juntava pra
descarregar caminhão. E enquanto não vinha o caminhão, armavam a
roda do samba. Iam jogando tiririca (Marcos, 1974, faixa 1).
O samba de São Paulo nasce no Largo da Banana: lugar de roda de samba e
jogo de tiririca, capoeira. Lugar de descarregar caminhão, de caixote de feira. O
caixote como limite da roda de samba se coloca também na fronteira entre o
trabalho e o ócio, impulsionando a vocação dialética do
Samba do Caixote
de
promover crítica e diversão.
Nota-se o vínculo solidário entre arquivo, memória e poética teatral, presente
na concepção do
Samba do Caixote.
Os roteiros mesclam contribuições pessoais,
fisgadas de escutas de sambas, e pesquisa histórica. Nas quinze rodas realizadas
na ocupação do Teatro Alfredo Mesquita, o G7 propôs um mapeamento de
musicais brasileiros, além de roteiros especialmente compostos para o
Samba do
Caixote, c
onstruindo-se assim a teatralidade da roda.
Apresentam-se em seguida as sínteses de rodas do
Samba do Caixote,
encenadas no Teatro Alfredo Mesquita e extraídas do
Relatório Final
(G7, 2002).
1. Sambas de Sinhô. Textos de Manuel Bandeira (O enterro de Sinhô) e
Vinícius de Moraes (Operário em construção), com destaque para a
polêmica da autoria do Pelo Telephone. Sinhô é um dos mais antigos
compositores brasileiros, da década de 20 do século passado, autor da
conhecida Jura, jura, jura pelo Senhor... Nessa época, o pessoal se reunia
para cantar e dançar na casa da Tia Ciata, no centro do Rio de Janeiro,
reduto dos negros, jogados desempregados nos bairros da cidade, com a
abolição da escravidão. Sinsempre aparecia por ali. O samba era um
canto coletivo brasileiro. Falava tanto de amores e paixões quanto dos
fatos que transformavam a cidade. Paulinho da Viola bebeu dessa fonte
com delicadeza e inteligência. Geraldo Filme e Adoniran Barbosa,
sambistas paulistanos, cantam os cantos da nossa cidade. O Trem das
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Onze cruzava o norte da Zona Norte, jogando fumaça no ar, levando gente
para saudosas malocas, que hoje são muitas mais. Estes sambas falam
de nosso cotidiano, nossa cidade, nosso coração e nossa alma
[06/12/2001 e 24/01/2002]9.
2. Nas quebradas do mundaréu, de Plínio Marcos, escrito em 1970. Mergulho
na história do samba paulistano. Participação de José Maria, puxador dos
mais belos sambas de Geraldo Filme para a Escola de Samba Peruche,
na década de 70 [31/01 e 14/02/2002].
3. Sambas de Carnaval. Roda de samba em que o público fantasiado dança
e participa. O roteiro amarra marchas de antigos carnavais, como Como
vaes você, de Ari Barroso, sambas-enredo, como Aquarela Brasileira, de
Silas de Oliveira, e poemas, como O homem e seu Carnaval, de Carlos
Drummond de Andrade. Com a encenação de Brasil, de Oswald de
Andrade, um grupo de aprendizes das Oficinas de Teatro, Música e
Memória abre a noite. A cidade respira carnaval. As ruas, nestas noites,
pressentem o fim da semana. Fora, aquém e além do rio Tietê, o samba
come solto. Num pequeno pedaço da Zona Norte, Avenida Casa Verde,
Ponte do Limão e Marquês de São Vicente, é surdo, tamborim, pandeiro,
cavaquinho e violão, vozes suadas, pés no chão e cinturas afinadas. O
samba se repete não sei quantas vezes, é gente, muita gente em contato
direto, ao sabor da luz lunar. Encontros reais em época virtual. Na
Mocidade Alegre, Peruche e Camisa Verde e Branco, o clima é febril e
luminoso, como numa peça de teatro nas vésperas da estreia. O Samba
do Caixote torna-se um caldeirão disposto a fundir histórias, sambas e
esta atmosfera lúdica e pulsante [07/02/2002].
4. Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo.
Roda épica, baseada no musical de 1965, em que a saga de Zumbi dos
Palmares metaforiza o golpe civil-militar-empresarial de 1964. A roda
amplia a temática para escravidão e quilombos: o cantor Maria
participa e Rogério Batom também apresenta um samba [21/02 e
11/04/2002].
5. Adoniran abraça Bananére. Ponte macarrônica entre dois poetas de uma
vocalidade das ruas paulistanas, marcas de duas épocas: o Bananére da
década de 1910 com Adoniran Barbosa, da segunda metade do século XX
[28/02/2002].
Eu conto histórias das quebradas do mundaréu. de onde o vento
encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega
a pior. Que come da banda podre. Que mora na beira do rio e quase se
afoga toda vez que chove. Que berra da geral sem nunca influir no
resultado. Falo dessa gente que transita pelos estreitos, escamosos,
esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão, que
apesar de tudo é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente
numa existência melhor na paz de Oxalá! (Marcos, 1974, faixa 1).
9 Datas das apresentações.
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Alexandre Machado e Zebba Dal Farra.
Almannacco Bananére. Figas num ganto.10
Alexandre Machado e Zebba Dal Farra.
Varredore de rua. Migna Terra.11
6. Tuniquinho Batuqueiro no Samba do Caixote. Numa noite especial, o
compositor paulistano Tuniquinho Batuqueiro participa da roda,
estruturada pelo texto de Plínio Marcos (Nas quebradas do mundaréu).
Tuniquinho impõe outra dinâmica, contando e aprofundando histórias,
cantando muito partido alto. Várias figuras do mundo do samba
paulistano presentes: Carlão da Vila, Moisés, Júnior, Rogério Batom
[14/03/2002].
Figura 1 - Tuniquinho Batuqueiro, à esquerda; Foto: Adelaide Pontes.12
7. Sambas de Elis. Este roteiro mesclou sambas imortalizados por Elis
Regina, como O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc,
Canto de Ossanha, de Baden e Vinícius, Na batucada da vida, de Ary
Barroso, com um poema da poetisa Cora Coralina. O Samba do Caixote,
10 Arquivo sonoro. Acesso pelo código QR ou por este link. Elenco: v. nota 8.
11 Arquivo sonoro. Acesso pelo código QR ou por este link. Elenco: v. nota 8.
12 Além de fotos, cerca de quatrocentos arquivos em diversas mídias, a serem digitalizados: VHS, VHS-C,
Mini DV e DVD.
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roda de aprendizes do samba, se abre para Elis, voz da nossa Memória.
Elis é samba, filha requintada de Elza Soares e Elizeth Cardoso [21/03 e
18/04/2002].
8. Rosa de Ouro, de Hermínio Bello de Carvalho. Aracy Côrtes, Clementina
de Jesus e Os Quatro Crioulos - Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho,
Nélson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola -
apresentaram o espetáculo nos anos 60, no Teatro Jovem, na cidade Rio
de Janeiro. Rosa de Ouro, ode ao samba carioca, respira os ares de
grandes sambistas, como Ismael Silva, fundador da primeira Escola de
Samba, o Deixa Falar. Quem viu Tuniquinho Batuqueiro e as Quebradas
do Mundaréu no Samba do Caixote pode cantar e observar as
semelhanças e deliciosas diferenças de duas tradições fortes do samba:
a que vem do Rio, urbana, cheia de malandragem, e a que vem de São
Paulo: “o samba de São Paulo vinha do interior, vinha dos terreiros do
café. Era o samba batuque, o samba de trabalho, o samba de toco”, como
ensina Plínio Marcos [28/03/2002].
9. Adoniran abraça Bananére. Ponte macarrônica entre dois poetas de uma
vocalidade das ruas paulistanas, marcas de duas épocas: o Bananére da
década de 1910 com Adoniran Barbosa, da segunda metade do século XX
[28/02/2002].
Eu conto histórias das quebradas do mundaréu. de onde o vento
encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega
a pior. Que come da banda podre. Que mora na beira do rio e quase se
afoga toda vez que chove. Que berra da geral sem nunca influir no
resultado. Falo dessa gente que transita pelos estreitos, escamosos,
esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão, que
apesar de tudo é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente
numa existência melhor na paz de Oxalá! (Marcos, 1974, faixa 1). Noel Rosa,
o Poeta da Vila e seus amores. O texto de Plínio Marcos, escrito
especialmente para o SESI, em 1977, teve seus principais trechos e
sambas apresentados no Samba do Caixote. Novamente o samba
carioca, agora por olhares paulistanos. Noel, nascido depois da passagem
do Cometa de Haley, em abril de 1910, foi um cometa genial: quando
morreu aos 26 anos, compusera quatrocentas músicas, das quais pelo
menos trezentas ótimas e no mínimo vinte obras-primas. Cronista da
cidade, polemista do samba, poeta lírico e cômico, Noel é compositor
urbano, contrapondo-se ao samba coletivo da Casa da Tia Ciata, que,
simbolicamente, morre com a hemoptise de Sinhô no Canal do Mangue,
a bordo da Cantareira, em 1930. Plínio Marcos, nosso guia do Samba da
Pauliceia, agora é o condutor do bonde Noel.
No âmbito do
Projeto Cidade Dentro Cidade Fora
, houve uma prospecção das
raízes do samba de São Paulo, para o que contribuíram as presenças do
compositor Tuniquinho Batuqueiro, dos sambistas Carlão da Vila e Maria, do
radialista comunitário Rogério Batom, de Júnior, pesquisador do samba de São
Paulo, e de Moisés da Rocha, do Anhembi. Um público de 375 pessoas ocupou o
palco do Teatro Alfredo Mesquita, posicionando-se em volta da roda central,
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formada por instrumentistas do samba, atrizes e atores.
Interlúdio. A perspectiva não-acusmática como fundamento
De um ponto de vista etimológico, o termo “som” (ΨόФоς) pode ser
declinado, segundo a ocorrência, em três modos diversos: na língua
arcaica, uma primeira declinação é ηχώ (eco), que evoca a reverberação
dos sons em um espaço, enquanto uma segunda é Φωνή (voz), que por
sua vez remete ao registro vocal, assinalando uma separação clara entre
as qualidades sonoras da voz e o significado da palavra que ela veicula.
Todavia, há uma terceira declinação, que aparece sob a denominação de
ακουσμά (acusma) e que se refere a um som do qual percebemos a
presença, sem, todavia, sermos capazes de indicar com precisão a
proveniência (Pitozzi, 2017, p. 80-81)13.
A partir deste breve percurso etimológico de Enrico Pitozzi, podemos dizer
que a relação entre fonte visual e fonte sonora engendra duas tipologias gerais. Se
não existe coincidência entre as duas fontes, diremos que estamos em modo
acusmático,
no qual podemos distinguir, entretanto, duas situações: ou a fonte
visual está totalmente oculta, isto é, não se vê de onde o som é produzido, ou
um deslocamento entre as fontes, uma separação entre elas. O incremento das
tecnologias sonoras proporcionou a propagação contemporânea desta opção, pelo
uso de microfones e a possibilidade de posicionar difusores acústicos nos mais
diversos pontos do espaço teatral, amplificando-se vozes e sonoplastias. Os
shows musicais há bem mais tempo praticam este deslocamento, que talvez não
nos cause estranheza por nossa familiaridade com a presença de microfones na
performance de cantores e cantoras. O
Samba do Caixote e o
Teatrosamba do
Caixote,
sua evolução no
estação7,
não utilizavam nenhum recurso eletrônico em
suas rodas, ou seja, havia uma coincidência entre o lugar da fonte e o de sua
sonoridade: vozes e sons instrumentais emanam de corpos e objetos visivelmente
vibráteis. Por um lado, este fundamento exigiu um apuro da escuta e da dinâmica
13 Da un punto di vista etimologico il termine “suono” (ΨόФоς) può essere declinato, secondo le occorrenze, in
tre diversi modi: nella lingua arcaica, una prima declinazione è l’ηχώ (eco), che richiama una riverberazione
dei suoni in uno spazio, mentre una seconda è la Φωνή (voce) che invece rimanda al registro vocale, segnando
una separazione netta tra quelle che sono le qualisonore della voce e il significato delle parole che essa
veicola. Tuttavia c’è una terza declinazione, che va sotto il nome di ακουσμά (acusma) e che dice di un suono
di cui avvertiamo la presenza, senza tuttavia essere in grado di indicarne con precisione la provenenza.
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12
de execução instrumental, em relação recíproca com as vocalidades poéticas14. A
ausência de amplificação também estreitava o convite para a participação do
público na condição de concelebrante daquele rito, como mostra o fato cada vez
mais frequente da finalização da roda, em que artistas e público cantavam e
dançavam juntos as canções de fechamento. Por outro lado, este modo não-
acusmático desfavoreceu a gravação em áudio das rodas, de modo que sua
sonoridade pode ser aferida por registros audiovisuais, em que a captação foi
feita de forma geral e de um pequeno número de pontos de escuta15.
Segundo Movimento. O
Teatrosamba do Caixote
no estação7 [2003-2004]
A passagem de
Samba do Caixote
para
Teatrosamba do Caixote
reafirma e
fortalece o rito da roda. Em primeiro lugar, no espaço cênico adaptável em solo
de cimento queimado a circularidade pode ser plenamente criada. Além disso, a
partir de um certo ponto, as arquibancadas introduzem-se na roda de artistas
musicais e teatrais, borrando-se a tênue fronteira entre palco e público. Se no
Teatro Alfredo Mesquita o samba abria a semana cultural na quinta-feira, no
estação7
o
Teatrosamba do Caixote
fechará as atividades semanais, em horário
nobre: domingos às seis da tarde, “na hora da Ave-Maria”, como dizia a atriz Claudia
Pacheco, enfatizando o caráter teatral sagrado que o rito exige. Sagrado no sentido
de fundar um recorte espaço-temporal no cotidiano: o sagrado separa (Agamben,
2007). De fato, a prática semanal engendrou a formação de um público nuclear
fiel que, munido de cadernos produzidos especialmente a cada domingo, com as
letras das principais canções, lia, escutava, dançava e cantava.
14 Frise-se que a vocalidade poética brasileira equilibra-se entre o dizer e o cantar, fato que se desenvolve
plenamente no contexto do
Teatrosamba do Caixote.
Sara Lopes afirma de forma sucinta e precisa:
diz isso
cantando!
(Lopes, 2007).
15 Os excertos sonoros inseridos ao longo do texto provêm de gravações especialmente feitas para o DVD
Caixotes no Caixote
(G7, 2006) e para o álbum
Roda das Vozes em Estado de Sítio
(Ausgang de Teatro, 2019)
.
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13
Figura 2 - Exemplos de cadernos, com os quais o público participava das rodas.
Concepção e diagramação: Zebba Dal Farra.
nos primeiros meses do
estação7,
o início da roda, deflagrado pelo
Bebadosamba
e o
Yaô,
ganhou um novo samba, configurando-se um tripé de
abertura: a canção
Teatrosamba do Caixote.
Composta especialmente para esta
função, sintetiza poeticamente o terreno de evolução da proposta.
Restos
De um sentimento
Que se assemelha
A um batuque feito
Nas costas de um violão
Sonhos
De um samba antigo
Cujo argumento
Perdeu seu efeito
Numa história de contradição
Dores
De um amor sem rosto
De uma saudade
Que aceitou o gosto
E o sabor
Viveu de uma desilusão
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14
Risos
De uma lembrança
Que estampa aflita
Outra esperança
E põe no peito aqui calado esse coração
Muitos
Cantando restos
Cantando sonhos
Cantando dores cantando risos
Nesse teatrosamba no ar.
Antonio Ginco e Zebba Dal Farra.
Teatrosamba do Caixote.16
No ato participativo, público e artistas17 tornam-se aprendizes de samba, de
dizeres brasileiros encapsulados nas canções, de escutas e relações coletivas, pois
O Teatrosamba do Caixote se situa num ponto equidistante entre
pedagogia e montagem: cada novo roteiro do Teatrosamba do Caixote
propõe uma dimensão educativa, propiciando uma aprendizagem única
de seus participantes, atores, cantores, músicos e espectadores. O fluxo
da Música Brasileira contamina e irriga o Teatrosamba do Caixote: são
leituras de partituras consagradas, como Rosa de Ouro e Arena Conta
Zumbi, e também novos roteiros, concebidos semanalmente, no calor do
samba. É lugar onde se cultivam as relações na roda, temperadas pelo
samba, que, mesmo quando não é samba, é mote poético (G7, 2004, p.
47).
No
estação7,
um incremento significativo no aspecto improvisacional da
roda. Para além das surpresas provocadas pelo aparecimento inesperado de um
samba, aflorado da memória, desenvolve-se também um gesto improvisador na
concepção cenográfica, nos elementos cênicos e nas indumentárias,
entretecendo-se em sambas e panos. Respirava-se uma atmosfera magnética e
criativa, propícia ao risco de travessias e transformações.
Há, portanto, uma expansão na utilização de arquivos para a construção de
roteiros, atuação e encenação das rodas. Inicialmente, tratava-se de traçar
16 Arquivo sonoro. Acesso pelo código QR ou por este link. Elenco: v. nota 8.
17 No
estação7,
além dos artistas nucleares do
G7,
o elenco do
Teatrosamba do Caixote
contou com a presença
constante de Rodrigo Campos, no cavaquinho, e Alexandre Ribeiro, no clarinete. Participaram intensamente
de várias rodas Miró Parma e Fernando Jarrão, no pandeiro, JG Alves, no clarinete, Fábio Anastácio e Johnny,
no surdo, e Alexandre Dal Farra, no cavaquinho.
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15
itinerários percorridos em coleções e repertórios de canções, segundo eixos
temáticos e em perspectiva cênica: cantar e dizer abriam-se ao entendimento,
isto é, à criação de sentidos. A estes arquivos sonoros integram-se arquivos visuais:
tecidos, redes, cordas, capas, calças, chapéus, objetos e figurinos, que irão
constituir um novo acervo do grupo18.
Para que se tenha uma ideia das dinâmicas envolvidas no
Teatrosamba do
Caixote,
apresenta-se em seguida um leque de rodas realizadas no
estação7
, nos
anos de 2003 e 2004, com informações retiradas do
Arquivo de Releases
(G7,
2004a) e dos
Arquivos de Roteiros I e II
(G7, 2004b).
1.
Sambas para Iemanjá.
A
Lavagem da Ladeira
do
estação7
saúda a Mãe
Negra do Brasil [02/02/2003 e 02/02/2004].
No clarear de uma manhã
eu tive um sonho tão bonito!
Sonhei que as águas de Yemanjá
me transportavam ao infinito!
De suas águas generosas...
As suas mãos me estendeu...
E na carícia das marolas...
A minha alma adormeceu...
Adormeceu, sob o amparo da mãe d'água!
Sentindo o amor que não se esgota...
Yemanjá...DOCE Yemanjá...
Sou pequenino grão de areia
na imensidão desse mar!
É a tua luz que me clareia
o caminho e o trabalho
que oxalá me concedeu!
E é por isso que, serena,
a minha alma adormeceu!
(G7, 2004b, I.19).
2.
1964.
Memórias da resistência a 64, caminhos e canções explodem em
1968. Textos de Gláuber Rocha,
Terra em transe
[30/03/2003 e
28/03/2004].
Paulo: E atenção, senhoras e senhores. Vejam como se faz um político...
Em 1937 Porfírio Diaz recebia dinheiro alemão e fazia campanha pró-
nazista. Em 1939, passou a receber dinheiro americano e fez campanha
18 O acervo de indumentárias e tecidos, bem como equipamentos de iluminação do
G7,
foram doados à
Próxima Companhia,
em 2020.
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16
para levar o Brasil à guerra. Em 1945, entrou para o Partido Comunista e
combateu os americanos. Em 1947, traiu o Partido e se aliou aos grupos
de extrema direita, elegendo-se deputado. Pulou da Câmara para o
Senado e depois conspirou para derrubar três presidentes. De fascista a
revolucionário, da corrupção ao suborno e do suborno ao crime, sempre
com o nome de Deus na boca, enganando o povo e seus próprios sócios
na quadrilha que assalta o poder (G7, 2004b, I.1)
3.
Heróis da Liberdade.
O canto pergunta: é preciso de heróis? [20/04/2003].
Exemplo de difusão. Matéria no jornal
O Estado de São Paulo.
04/05/2006.19
4.
Samba Poético.
A sabedoria de Vinícius de Moraes, em canções com seus
parceiros e poemas, como
Poética I
[14/03/2004].
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
19 A matéria se refere à circulação do
Teatrosamba do Caixote
por espaços da Capital, em 2006. Nos anos do
estação7,
a assessoria de imprensa foi da jornalista Lília Primi.
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17
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
Meu tempo é quando.
(G7, 2004b, II.18)
5.
Rei Luiz do Baião.
Toda simplicidade sofisticada nas canções de Gonzagão
[17/08/2003].
Meu nome é Luiz Gonzaga. Não sei se sou fraco ou forte, sei que graças
a Deus pra nascê tive sorte, pois nasci em Pernambuco, famoso Leão
do Norte. Nas terras do novo Exu da fazenda Caiçara, em novecentos e
doze, viu o mundo minha cara. Dia de Santa Luzia, por isso é que sou
Luiz. No mês qui Cristo nasceu, por isso é que feliz. Adianta querer
saber muita coisa? O senhor sabia, para cima me disseram. Mas, de
repente chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca
tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada... Serviu algum?
(G7, 2004b, I.18).
6. Samba da Preguiça. No Dia do Trabalhador, o canto é pela preguiça, polo
dialético necessário, mas quase sempre negligenciado [04/05/2003 e
02/05/2004].
Nos ventos do Primeiro de Maio, o Teatrosamba do Caixote do Grupo dos
Sete navega na oposição entre preguiça e trabalho, inspirado nos
clássicos “Elogio à Preguiça”, ensaio novecentista de Paul Lafargue, e do
“Operário em Construção”, poema dialético de Vinícius de Moraes. Na
defesa do ócio, Lafargue afirma que é suficiente comparar as condições
físicas de um cavalo de passeio com o que lida no campo para se
convencer dos malefícios do trabalho. Sobre essa luta, a história do
samba nos guarda a deliciosa polêmica de Wilson Batista e Noel Rosa,
malandro versus trabalhador. A dor do cotidiano da lida da construção e
a esperança do trem que já vem. E tome Macunaíma: “Ai, que preguiça!!!!”
(G7, 2004a, p. 25).
7. Samba Índio. Índios e a luta pela terra, mote recorrente desde o
Descobrimento do Brasil. Chico Buarque: Assentamento [18/04/2004].
Quando eu morrer
cansado de guerra
morro de bem
com a minha terra:
cana, caqui
inhame, abóbora
onde só vento se semeava outrora
amplidão, nação, sertão sem fim
ó Manuel, Miguilim
vamos embora
(G7, 2004b, I.20)
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18
8. Mães Negras do Samba. No Dia das Mães, o Teatrosamba do Caixote canta
Mães Negras do Samba: Clementina, Dona Ivone, Elizeth e Elza Soares
[11/05/2003 e 09/05/2004]
Cenas simultâneas: Favelário nacional (Drummond), Estação derradeira
(Chico Buarque), A mãe do meu guri.
Quem sou eu para te cantar, favela,
que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta
e a noite inteira de sábado
e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos? […]
São Sebastião crivado
nublai minha visão
na noite da grande
fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
derradeira estação
quero ouvir sua batucada, ai, ai […]
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
olha aí, é o meu guri
(G7, 2004b, II.2).
9. Custódio Mesquita, prazer em conhecê-lo. Saudações a um sambista do
piano, parceiro de Mário Lago e Sadi Cabral [07/03/2004].
O espaço é de um estúdio radiofônico.
Locutor (ao som de badaladas): Ao soar o carrilhão dando as doze
badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, também
os ouvintes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no programa Gente que
brilha, se encontram com Francisco Alves, o rei da voz!
Na carícia de um beijo
Que ficou no desejo
Boa noite, meu grande amor!
[...]
Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
É demais para o meu coração.
(G7, 2004b, I.14).
10. Ismael Silva. Elegância e precisão do sambista carioca [30/05/2004].
Na mesa do Café Nice, conversam Ismael e Nílton Bastos.
Ismael. O Nílton, eu fui garoto num bairro, num dos três bairros em que
me criei, no Rio Comprido. Estácio e Catumbi, três bairros da mesma
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jurisdição que eu me criei, pois bem, e porque eu cheguei aqui, aos três
anos de idade; porque eu vim de Jurujuba, Niterói, fui para o bairro do
Estácio de Sá, então de lá, não demorou muito a minha família mudou-
se para o bairro de Catumbi, depois para o bairro de Rio Comprido e
terminou no Estácio, voltando ao Estácio.
Evaldo Rui. Parece que ainda estou vendo, sentados naquela mesa que
ficava bem defronte à rua do Estácio, o Ismael Silva, no seu irrepreensível
terno azul-marinho, com a sua camisa de seda lavável imaculadamente
branca e aquela gravata de tricô preto... Ao seu lado eso Nílton Bastos,
uma das figuras maiores do Café... Ele usa chapéu de feltro marrom,
combinando com seu terno também marrom e sapatos da mesma cor...
O que estarão dizendo neste justo momento? Talvez, naquele instante,
eles estivessem dando os últimos retoques no Se você jurar... Talvez
estivessem arranjando uma rima melhor para a palavra saudade... E eu
ali firme, procurando disfarçar a minha curiosidade, aguardando o
momento em que os dedos ágeis e cheios de ritmo dos dois mestres
começassem a tamborilar sobre o mármore da mesa (G7, 2004b, II.1).
11. Melodias do Melodia. Felinos sambas e baladas negras [23/05/2004].
Sou peroba, sou a febre, quem sou eu?
Sou o morto que viveu
Corpo humano que venceu
Ninguém morreu
Ninguém morreu
Ninguém morreu
(G7, 2004b, II.3)
12. Samba Negro. Vozes de resistência no ar [21/11/2004].
Novembro é Negro no Teatrosamba do Caixote, celebrando Zumbi, os
quilombos e a resistência dos escravos, no século XVI. O cartaz deste
domingo é o Samba Negro, em que se apresentam canções de Luis
Melodia, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, João Bosco e Aldir Blanc, Jorge
Mautner e Zebba Dal Farra. Completam o programa trechos do Arena
conta Zumbi, de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo,
grande sucesso do Arena, estreado em 1965. Metáfora da ditadura militar,
a montagem propunha uma reflexão sobre este momento histórico,
apoiado em elementos do teatro épico (G7, 2004a, p. 17).
Teatro, Música e Memória no
Teatrosamba do Caixote
José Batista (Zebba) Dal Farra Martins | Maria Adelaide Pontes | Claudia Pacheco Simões
Florianópolis, v.2, n.55, p.1-33, ago. 2025
20
Figura 4 -
Samba Negro.
Abertura da roda. Foto: Elaine Pontes.
13.
Samba Antropófago.
50 anos da morte de Oswald de Andrade
[24/10/2004].
50 anos, morria em São Paulo o grande escritor e artista Oswald de
Andrade, modernista exemplar da Semana de 22. Celebrando a data, o
Teatrosamba do Caixote oferece um banquete de canções, sambas e
textos de visões antropófagas do Ser Brasileiro. Tropicália, Geleia Geral e
Os Últimos Dias de Paupéria, Caetano, Gil e Torquato Neto, regados com
molhos oswaldianos e uma intromissão bananérica, antropófago da
primeira hora do Modernismo brasileiro (G7, 2004a, p. 13).
Figura 5 -
Samba Antropófago.
Em cena: Adelaide Pontes, Alexandre Ribeiro,
Claudia Pacheco, Divino Silva, Rodrigo Campos e Miró Parma.
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21
14.
Kéti.
A fala inicial da roda situa o lugar do show
Opinião,
primeira
resposta artística ao golpe de 1964, primeira aparição de Zé Kéti, “autor de
sambas e marchas inesquecíveis, como
A Voz do Morro
, que Elis canta
como nunca na gravação do
Dois na Bossa
(
Eu sou o samba, a voz do
morro sou eu mesmo sim senhor!
), e
Máscara Negra
, gravação antológica
de Dalva de Oliveira. Neste 14 de novembro [de 2004, dia da roda], faz
exatamente cinco anos da morte de Zé Kéti” (G7, 2004a, p. 15).
Quando aconteceu o golpe militar, em março de 1964, Augusto Boal e o
Teatro de Arena foram postos sob suspeita. Na época, não havia
integração nacional das polícias. Que fez Boal? Migrou para o Rio de
Janeiro. Lá, estreou no dia 11 de dezembro de 1964, o Opinião, show
escrito por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes. Com
Nara Leão, João do Vale e Zé Kéti. Em janeiro de 1965, Suzana de Moraes
substituiu Nara Leão. Em fevereiro, Maria Bethânia substituiu Suzana de
Moraes. Nara Leão, moça da classe média carioca, João do Vale, um
músico nordestino no sul, ti, negro, andarilho e observador dos
morros do Rio, Vianinha e Paulo Pontes, criadores e continuadores de
uma dramaturgia brasileira, Augusto Boal, encenador comprometido com
as dimensões políticas do teatro. Juntos neste momento crítico da nossa
história, eles defendem que a música popular é tanto mais expressiva
quando tem uma opinião, quando se alia ao povo na captação de novos
sentimentos e valores necessários para a evolução social, quando
mantém vivas as tradições de unidade e integração nacionais. A música
popular não pode ver o público como simples consumidor de música, ele
é fonte e razão de música (G7, 2004b, II.19).
Integrada à roda, o grupo promoveu naquela noite uma atividade reflexiva
sobre o samba de São Paulo com a pesquisadora Maria Apparecida Urbano,
enfatizando-se a proposta do projeto de imbricar teoria, prática e o prazer de
cantar.
15.
Sambas do Ary.
Ary Barroso e o samba exaltação [07/09/2003].
Quando aconteceu o golpe militar, em março de 1964, Augusto Boal e o
Teatro de Arena foram postos sob suspeita. Na época, não havia
integração nacional das polícias. Que fez Boal? Migrou para o Rio de
Janeiro. Lá, estreou no dia 11 de dezembro de 1964, o Opinião, show
escrito por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes. Com
Nara Leão, João do Vale e Zé Kéti. Em janeiro de 1965, Suzana de Moraes
substituiu Nara Leão. Em fevereiro, Maria Bethânia substituiu Suzana de
Moraes. Nara Leão, moça da classe média carioca, João do Vale, um
músico nordestino no sul, ti, negro, andarilho e observador dos
morros do Rio, Vianinha e Paulo Pontes, criadores e continuadores de
uma dramaturgia brasileira, Augusto Boal, encenador comprometido com
as dimensões políticas do teatro. Juntos neste momento crítico da nossa