
Teatro, Música e Memória no
Teatrosamba do Caixote
José Batista (Zebba) Dal Farra Martins | Maria Adelaide Pontes | Claudia Pacheco Simões
Florianópolis, v.2, n.55, p.1-33, ago. 2025
roda de aprendizes do samba, se abre para Elis, voz da nossa Memória.
Elis é samba, filha requintada de Elza Soares e Elizeth Cardoso [21/03 e
18/04/2002].
8. Rosa de Ouro, de Hermínio Bello de Carvalho. Aracy Côrtes, Clementina
de Jesus e Os Quatro Crioulos - Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho,
Nélson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola -
apresentaram o espetáculo nos anos 60, no Teatro Jovem, na cidade Rio
de Janeiro. Rosa de Ouro, ode ao samba carioca, respira os ares de
grandes sambistas, como Ismael Silva, fundador da primeira Escola de
Samba, o Deixa Falar. Quem viu Tuniquinho Batuqueiro e as Quebradas
do Mundaréu no Samba do Caixote pode cantar e observar as
semelhanças e deliciosas diferenças de duas tradições fortes do samba:
a que vem do Rio, urbana, cheia de malandragem, e a que vem de São
Paulo: “o samba de São Paulo vinha do interior, vinha dos terreiros do
café. Era o samba batuque, o samba de trabalho, o samba de toco”, como
ensina Plínio Marcos [28/03/2002].
9. Adoniran abraça Bananére. Ponte macarrônica entre dois poetas de uma
vocalidade das ruas paulistanas, marcas de duas épocas: o Bananére da
década de 1910 com Adoniran Barbosa, da segunda metade do século XX
[28/02/2002].
Eu conto histórias das quebradas do mundaréu. Lá de onde o vento
encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega
a pior. Que come da banda podre. Que mora na beira do rio e quase se
afoga toda vez que chove. Que só berra da geral sem nunca influir no
resultado. Falo dessa gente que transita pelos estreitos, escamosos,
esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão, que
apesar de tudo é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente
numa existência melhor na paz de Oxalá! (Marcos, 1974, faixa 1). Noel Rosa,
o Poeta da Vila e seus amores. O texto de Plínio Marcos, escrito
especialmente para o SESI, em 1977, teve seus principais trechos e
sambas apresentados no Samba do Caixote. Novamente o samba
carioca, agora por olhares paulistanos. Noel, nascido depois da passagem
do Cometa de Haley, em abril de 1910, foi um cometa genial: quando
morreu aos 26 anos, compusera quatrocentas músicas, das quais pelo
menos trezentas ótimas e no mínimo vinte obras-primas. Cronista da
cidade, polemista do samba, poeta lírico e cômico, Noel é compositor
urbano, contrapondo-se ao samba coletivo da Casa da Tia Ciata, que,
simbolicamente, morre com a hemoptise de Sinhô no Canal do Mangue,
a bordo da Cantareira, em 1930. Plínio Marcos, nosso guia do Samba da
Pauliceia, agora é o condutor do bonde Noel.
No âmbito do
Projeto Cidade Dentro Cidade Fora
, houve uma prospecção das
raízes do samba de São Paulo, para o que contribuíram as presenças do
compositor Tuniquinho Batuqueiro, dos sambistas Carlão da Vila e Zé Maria, do
radialista comunitário Rogério Batom, de Júnior, pesquisador do samba de São
Paulo, e de Moisés da Rocha, do Anhembi. Um público de 375 pessoas ocupou o
palco do Teatro Alfredo Mesquita, posicionando-se em volta da roda central,