
Danço, logo duvido: Uma parceria entre a Dança de Rua de Bruno Beltrão e a Filosofia Pop
Charles Feitosa
Florianópolis, v.3, n.48, p.1-20, set. 2023
tônica de todas as parcerias da filosofia pop com as artes, seja com a dança, o
cinema, a música, a literatura ou, mais recentemente, com as artes da
performance4.
Alguns anos mais tarde, em 2008, por ocasião da apresentação do trabalho
“H3”, encontrei com ele novamente no renomado festival de dança
contemporânea Panorama, no Rio de Janeiro. Ele me contou do interesse pela
filosofia, despertado na graduação pelas aulas com Roberto Pereira, e me
perguntou se eu não toparia um grupo de estudos com ele e outros dançarinos da
sua companhia. Durante três meses, então, nos reunimos semanalmente, eu,
Bruno, Willow (Eduardo Hermanson, bailarino excepcional, hoje em carreira solo),
Thiago Almeida e outros, no aprazível bairro da Glória no Rio de Janeiro, para
conversar sobre aspectos básicos da filosofia, tais como as principais teorias sobre
o real e as diferentes concepções, positivas ou negativas, da arte, de Platão a
Heidegger, passando por Aristóteles, Kant e Hegel.
Essa parceria foi intensa, mas sem um projeto específico. Na época, a única
repercussão imediata foram brincadeiras improvisadas citando nomes e conceitos
da filosofia nas apresentações posteriores do grupo, especialmente nas reedições
de
Telesquat
(2003), espetáculo com foco nas relações entre os corpos e a
tecnologia. Somente anos mais tarde, em meados de 2011, Bruno Beltrão me
convidou novamente para colaborar com sua companhia, dessa vez como uma
espécie de “filósofo na equipe”, durante os ensaios preparativos para CRACz. Os
ensaios e as conversas foram realizados por cerca de 18 meses em diversos
lugares, entre eles o Teatro Municipal de Niterói e o Grajaú Tennis Club do Rio de
Janeiro.
Lembranças do Making of de Crackz
Os ensaios eram longos e cansativos. Os dançarinos, 12 garotos e 1 garota
muito jovens, quase todos negros, de periferia, reclamavam bastante das lesões,
das quedas e do desgaste físico, mas eram de uma alegria arrasadora. Um enorme
“capital corporal”, como se costuma dizer no meio da dança contemporânea.
4 Ver Charles Feitosa, 2020.