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Uma mirada solar ao sul:
relato do processo de criação da dramaturgia
e encenação da peça de agitação
Soledad
Mariana Cesar Coral
Para citar este artigo:
CORAL, Mariana Cesar. Uma mirada solar ao sul: relato do
processo de criação da dramaturgia e encenação da peça
de agitação
Soledad
.
Urdimento
Revista de Estudos em
Artes Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 44, set. 2022.
DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573102442022e0302
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Uma mirada solar ao sul:
relato do processo de criação da dramaturgia e encenação da peça de agitação
Soledad
Mariana Cesar Coral
Florianópolis, v.2, n.44, p.1-20, set. 2022
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Uma mirada solar ao sul: relato do processo de criação da
dramaturgia e encenação da peça de agitação
Soledad
1
Mariana Cesar Coral
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Resumo
Esse relato propôs a descrever e discutir o processo de criação da
dramaturgia e encenação da peça
Soledad
sob a perspectiva do pensamento
decolonial, registrando elementos que contribuem para propor processos
criativos latino-americanos em uma mirada ao sul. A peça parte da história
da militante e poeta Soledad Barrett Viedma, vítima da Ditadura militar
brasileira, em 1973, e de histórias de mulheres insurgentes. Ao analisar o
processo de criação de
Soledad
, o estudo identificou os caminhos de
construção imagética e dramatúrgica, evidenciando as alegorias da peça.
Palavras-chave
: Soledad Barrett. Teatro. Dramaturgias do sul.
A solar gaze to the south: report the process of creating the
dramaturgy and staging of the play
Soledad
Abstract
This report proposes to describe and discuss the process of creating the
dramaturgy and staging of the play
Soledad
from the perspective of
decolonial thinking, registering elements that contribute to proposing Latin
American creative processes in a southern gaze. The play starts from the
story of activist and poet Soledad Barrett Viedma, victim of the Brazilian
military dictatorship in 1973, and stories of insurgent women. By analyzing the
process of creation of
Soledad
, the study identified the paths of imagery and
dramaturgical construction, highlighting the allegories of the play.
Keywords
: Soledad Barrett. Theater. Southern dramaturgies.
1
Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Priscila Rosa Martins. Mestra em Letras pela
Universidade Estadual de Londrina. E-mail: profpriscilar@gmail.com
2
Doutoranda e Mestra (2019) pelo programa de pós-graduação em Artes da Cena (UDESC); bacharel em Teatro
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP-2003) e possui especialização em Arte Crítica e
Curadoria (PUC/São Paulo-2012). É atriz, dramaturga, diretora e encenadora de Teatro.
coralemariana2@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/0174586398682379 https://orcid.org/0000-0002-9410-0808
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Una mirada solar al sur: reporte el proceso de creación de la
dramaturgia y puesta en escena de la obra
Soledad
Resumen
Este informe se propuso describir y discutir el proceso de creación de la
dramaturgia y puesta en escena de la obra
Soledad
desde la perspectiva del
pensamiento decolonial, registrando elementos que contribuyen a proponer
procesos creativos latinoamericanos en una mirada sureña. La obra parte de
la historia de la activista y poeta Soledad Barrett Viedma, víctima de la
dictadura militar brasileña en 1973, y de historias de mujeres insurgentes. Al
analizar el proceso de creación de
Soledad
, el estudio identificó los caminos
de la construcción imaginaria y dramatúrgica, destacando las alegorías de la
obra.
Palabras clave
: Soledad Barrett. Teatro. Dramaturgias sureñas.
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relato do processo de criação da dramaturgia e encenação da peça de agitação
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Florianópolis, v.2, n.44, p.1-20, set. 2022
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[...]
é provável que ainda sigas olhando
Soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer.
(Mario Benedetti)
A peça
Soledad
(2021) começou a ser imaginada antes do período de
isolamento pandêmico. Com produção da Cia Embróglio (Florianópolis, SC), foi
apresentada por cinco vezes de forma on-line, entre os dias 16 de outubro de 2021
e 06 de novembro de 2021. Sua realização teve o suporte do fomento municipal
da cidade de Florianópolis (2020) por meio da Fundação Cultural Franklin Cascaes.
Soledad
faz parte da pesquisa de doutorado sobre Teatro Brasileiro, da artista
Mariana Corale, e agrupa uma série de artistas fincados na Ilha de Santa Catarina,
entre eles: Fátima Costa de Lima, Ana Viegas, Yalis Barrett Drummond, Edinho
Roldan, Paula Maba, François Muleka, Rafael Motta, Gustavo Bieberbach, Ricardo
Goulart, Natália Poli, Rachel Seixas e Sérgio Vignes.
O sonho coletivo de falar sobre Soledad passou a ser desejado por nosso
grupo no ano de 2015, quando na página
As minas da história
3
, lemos sobre a
história da poeta e militante paraguaia. Naquele momento, estávamos escrevendo
outra peça,
Ontem à noite caía o sol
(2015). Quem era essa mulher assassinada
pelo governo brasileiro em 1973 no episódio conhecido como massacre da granja
São Bento?
4
Soledad Barrett Viedma nasceu no Paraguai em 1945 e passou por diversos
países da América Latina: Argentina, Uruguai, Chile, Cuba e Brasil. Seu destino foi
interrompido aos 28 anos, em 1973, na cidade de Bragança Paulista, no Estado de
Pernambuco, Brasil, onde junto com outros camaradas em atividades da
Vanguarda Popular Revolucionária (VPR
5
) organizava ações de contraponto à
3
Página sobre memória e protagonismo de mulheres: https://asminanahistoria.wordpress.com Acesso em: 08
mar. 2022
4
Para saber mais: https://memoriasdaditadura.org.br/memorial/soledad-barret-viedma/
Acesso em: 08 mar. 2022
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A Vanguarda Popular Revolucionária foi uma organização político-militar criada em 1968. Teve como um dos
principais líderes Carlos Lamarca.
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Ditadura Militar em curso em nosso país. Soledad Barrett é uma figura muito
lembrada na esquerda latino-americana, as fotos de seu rosto e seu nome andam
a vagar em todo continente em muros e manifestações.
Foi no Uruguai que recebeu as “impronunciáveis” em suas coxas durante um
sequestro praticado por um grupo de direita, ainda aos 17 anos
6
. Sua vida, misto
de sonhos e tragédia, tem um caráter simbólico muito forte, sua beleza e sua
própria morte tornaram-se emblemas do feminicídio, da violência contra a mulher
e, ao mesmo tempo, da resistência ao capitalismo e ao imperialismo. Seu trânsito
na América Latina, sua aproximação aos trabalhadores de algodão na Argentina,
seus caminhos como militante e o fato de ser de uma família de militantes
anarquistas, além de sua violenta morte e desaparecimento do corpo, criaram em
torno de Soledad Barrett uma imagem forte, mas também calcada em uma grande
melancolia.
De início, levando em consideração a hipótese dramática que Soledad
estivesse a vagar por esse tempo, nosso intuito era criar uma encenação a partir
da categoria de fantasma. O percurso investigativo foi muito intenso, tanto a
pesquisa em si, o contato com os familiares, quanto as leituras dos relatórios da
Comissão Nacional da Verdade
7
. O fato de seu corpo ter desaparecido, seus restos
mortais não terem sido até hoje velados, a falta de enterro, de velas, da
materialidade dos ritos fúnebres. Em 2023, a memória de sua morte chegará aos
50 anos e há o desejo de seus familiares e admiradores, ainda, de realizar os ritos
de passagem. Foram quatro meses até conseguirmos nos aproximar dos materiais
existentes, pensando no trabalho de memória como cercado de esquecimentos e
encobrimentos. A partir do encontro público com Ñaisandy Barrett de Araújo, filha
de Soledad, fomos traçando um caminho no qual outras histórias puderam ser
agregadas.
Com o desenvolvimento da pesquisa, percebemos que a maior parte do
material enfatizava o momento de sua morte e estávamos atrás da vida, de seus
6
Notícia sobre os 45 anos do assassinato de Soledad disponível em:
https://www.lanacion.com.py/espectaculo/2018/01/08/a-45-anos-del-asesinato-de-soledad-barrett/. Acesso
em: 01 maio 2022
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Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_3_digital.pdf Acesso em: 08
jun. 2022.
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caminhos pelo sul. A partir da aproximação de imagens da vida de Soledad Barrett
Viedma, iniciamos um processo de costuras e bordados materiais e alegóricos,
pensando o território da
Abya Yala
8
(a América ainda sem fronteiras), a terra
profunda ameríndia, e nos aproximamos artisticamente de situações de
enfrentamentos e utopias. A sinopse da divulgação enfoca isso:
A peça tenta criar efervescências de imagens, transitando em um Teatro
barroco, tempos, espaços e fantasmas que nos convocam a ter coragem
para enfrentar os desafios da atualidade; plantando ações do passado e
do presente em um heliotropismo histórico ancorado na arte e na
coletividade dos artistas.
9
Com o passar dos ensaios, fomos adentrando em uma situação de uma figura
mais profética, carnavalizada, essa figura, interpretada pela atriz Fátima Costa de
Lima, falava de outras mulheres que partiram, evocando-as; e de outras ainda
vivas, no front. A ideia de profeta traz a materialidade da narração, um
intermediário entre o sobrenatural e a humanidade. O tom profético da atriz traz
a convivência do sagrado e do profano e as conversas trabalham além dos planos
materiais, são conversas espirituais, dívidas, reencontros. um esforço para
tratar o não-dito (Pollack, 1989). O gesto da atriz é permeado por emoção e ironia,
as quebras épicas lidam com o sarcasmo, mas não de forma pura, há dialéticas e
convivência de opostos. Nesse momento, entra a carnavalização da linguagem
(Bakhtin, 2010).
A pesquisa de meses nos Arquivos da Comissão Nacional da Verdade era
insuficiente e foi preciso trazer histórias de outras mulheres para conversar com
a biografia de Soledad. Não apenas as que estavam perto da Sol, mas sim outras
histórias de resiliências. Na peça, há um forte apelo temporal, tanto pela ausência
ou presença do Sol (que insistiu em nos deixar na estreia) e a imagem da atriz. O
Sol passa a ser uma alegoria da Sol (Soledad) e sua imagem adentra-se na peça,
como figuração e repleta de significados sobrepostos. Desde o início, levamos
também em consideração, para a construção da peça, o desejo de quebrar a
8
Para saber mais sobre a expressão Abya Yala: http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/a/abya-yala.
Acesso em: 08 mar. 2022
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Texto da sinopse utilizado na divulgação nas redes sociais.
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Florianópolis, v.2, n.44, p.1-20, set. 2022
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melancolia do tema. A relação alegórica com o Sol possibilitou um direcionamento
mais vivo, ligado a uma imaginação política de enfrentamento de nossos desafios
da criação artística.
Em relação à Sol (Soledad), havia um acerto de contas, uma dívida. Esse
acerto passava pela questão da maternidade, Soledad havia deixado sua filha em
Cuba em 1971 e não pode voltar. Em janeiro de 1973, foi capturada em Olinda (PE)
e, junto com Pauline Reichestul, foram torturadas e assassinadas. Passam-se
décadas. um vácuo, outras mulheres. Pensando com a pesquisadora
nigeriana
Oyèronké OyeWùmí
(2019), outras formas de entender a questão da
maternidade, da
maternagem
, das maternidades e do gênero. A história de
Soledad Barrett Viedma como militante e como mãe é complexa e nos deparamos
com essa questão assim que iniciamos a pesquisa. Os ecos patriarcais são tão
fortes que nos impedem de entender histórias fora do padrão.
Para compor essa alegoria, algumas outras imagens foram colocadas em
cena: o milho, a fome (
hambre
), el perro
matapacos
. Durante toda a peça,
decidimos que era preciso mesclar o português e o espanhol em um linguajar
poético e popular. A escolha pelo milho inseria a representação do alimento base
das civilizações maias, astecas e tantas outras de nosso continente da América
Latina ou “Améfrica Ladina”
10
(Gonzalez, 1988). Desde o início da peça, colocamos
diversas imagens de pluralidade para tentar dar conta desse espaço, sem recalcar
nossas mazelas, sendo a maior delas a fome. As imagens em contradição: o milho
e a fome. Na
Améfrica
, a fome é construída a partir do início da colonização, da
modernidade e do racismo. A fome, presente também em nosso ano de 2022,
constrói-se por uma brutal distribuição de renda, de terra e pela venda de
nossas empresas estatais, ilustrando parte do cenário brasileiro. A fome é um
10
Lélia coloca a categoria
amefricanidade
para dar conta de nossas particularidades. Primeiro ela se utiliza da
palavra América e junta com a África como registro de legado, herança. “Partindo de uma perspectiva histórico
e cultural é importante reconhecer que a experiência
amefricana
diferenciou-se daquelas dos africanos que
permaneceram em seu próprio continente” (Gonzalez, 1988, p. 78). A
amefricanidade
faz com que possamos sair
de uma visão idealizada da África lidando com nosso próprio legado de resistência construída aqui nesse
território. A amefricanidade serviria para todos que estão na América, pois leva em consideração o legado
indígena e africano, apoiando-se na resistência da escravização, a reinterpretação e as adaptações culturais e
históricas. Amefricanos são todos da América, sem limite territorial dos estados nações. A categoria
amefricano
tem muito do négritude, afrocentricity (expressões de positivação do panafricanismo). uma criação do
território da diáspora incorporando o legado como uma grande herança de riqueza cultural, artística, histórica e
de conhecimentos. Lélia destaca a força dessa herança e podemos pensar em outros tempos e espaços de luta
que se somam ao atual.
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projeto colonial que deu certo, ameniza-se em governos populares, mas volta a
emergir no neoliberalismo brutal e galopante. Assim que a peça inicia-se, algumas
imagens já são colocadas:
NORTE (PLANO ESPIRITUAL) PARA O SUL (CULTIVOS, MUJER )
(
Edad caminha do norte ao sul, vinda de outro lugar, é pega no meio da
cena - Senta com um cesto em sua frente, Edad debulha espigas de
milho. Ela resmunga sobre o milho e a fome
)
Milho, maíz, tem, tiene mucho! (
ela dá risada
) la hambre, a fome é coisa
inventada
...
(
Dirige-se ao público
):
Sou a mulher que não morreu e el perro matapacos me acompanha
Ele pode latir se você se mexer, muito estranho...
(
muda de tom
)
(
saindo do sonho
)
Te extraño carinho. Carrego em mim marcas de outros séculos, outros
tempos, passei por Tenochtitlán e passei por Cuzco,
soy una mujer que debulha o milho em frente ao lago Chiapas.
(Coral, 2021, n.p.)
A atriz Fátima Costa de Lima, no processo, tenta criar uma imagem alegórica
e carnavalizada, sua interpretação joga com a narrativa sem aderir totalmente ao
texto, buscando sempre a dialética da cena. uma tentativa de colocar o
território da América Latina como central, fugindo da visão de periferia do mundo
e como chão. Esse chão dar-se-á em um sentido do espaço geográfico e, também,
do espaço cênico. O sul como epistemologia liga-se ao chão, numa busca por
romper as fronteiras dos Estados-Nações; pensando em um espaço pré-colonial
ou uma utopia decolonial. O chão também se liga à vida, à produção de alimentos
e ao sangue derramado nas lutas populares, é ainda o lugar onde estão os mortos
e os desaparecidos.
A peça de agitação
Soledad
tem a alegoria
benjaminiana
11
como procedimento
11
“A alegoria - mais especificamente, a alegoria
benjaminiana
- carrega em si uma espécie de alheamento da
tradição, que abre espaços entre o presente e um passado o qual talvez ficasse para sempre sepultado sem o
trabalho da alegoria. Portanto, em relação à temporalidade histórica são duas as intervenções da alegoria: ela
permite acessar outro passado, que foi esquecido, e desse modo permite o acontecer outro presente”. (Lima,
2021, p. 130)