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Entre a atriz e a performer: a visibilidade
feminina construindo um corpo em arte
Ronaldo Záphas (Francisco dos Santos)
Isabela Augusto Rosa
Para citar este artigo:
ZÁPHAS, Ronaldo; ROSA, Isabela Augusto. Entre a atriz e
a performer: a visibilidade feminina construindo um
corpo em arte.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 44, set. 2022.
DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573102442022e0106
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Entre a atriz e a performer: a visibilidade feminina construindo um corpo em arte
Ronaldo Záphas (Francisco dos Santos) ; Isabela Augusto Rosa
Florianópolis, v.2, n.44, p.1-23, set. 2022
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Entre a atriz e a performer: a visibilidade feminina construindo um corpo em
arte
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Ronaldo Záphas (Francisco dos Santos)
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Isabela Augusto Rosa
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Resumo
Este artigo tem o interesse de compreender como pode acontecer a construção de
um corpo em arte, nos possíveis limites entre uma atuação teatral e uma ação
performática. Limita-se a explorar essa temática através de algumas vozes
femininas inseridas no campo teatral e performático. O principal foco
na investigação desses materiais se deu pela observação do trabalho corporal de
mulheres, a partir de seus corpos em cena, objetivando uma visibilidade feminina e
suas questões. Assim, usa-se como materiais de análise a peça
Tem alguém que
nos odeia
que engloba a representatividade lesbo-feminina , e a performance
intitulada
6 minutos
, que trata de questões a respeito do aborto.
Palavras-chaves
: Atuação teatral. Ação performativa. Visibilidade feminina.
Between the actress and the performer: female visibility building a body in art
Abstract
This article intend to understand how can occur the construction of a body in art, in
the possible limits between a theatrical performance and a performative action. It
limits to explore this questioning through some female voices inserted in the
theatrical and performative field. The main focus in the investigation of these
materials was the observation of women's body work, from their bodies on stage,
aiming to a female visibility and their questions. Thus, were used as materials for
analysis the piece “Tem alguém que nos odeia” that encompasses lesbo-female
representation and the performance entitled “6 minutos” which deals with
questions about abortion.
Keywords
: Theatrical performance. Performative action. Women's visibility.
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Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Rony Farto Pereira, Mestre (1983) e Doutor em Letras
(1991) pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" UNESP, campus de Assis-SP.
ronyfarto@gmail.com.
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Doutorando em Artes da Cena e Mestre em Artes da Cena (2017), ambos pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP). Especialização em Gestão e Políticas Culturais (2011) pela Escola Itaú
Cultural/Universidade de Girona/Espanha. Licenciando em Teatro pela Mozarteum. Licenciando em Arte pela
FAAL. Graduado em Artes Cênicas (UNICAMP). ronaldozaphas@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/2870830100319239 https://orcid.org/0000-0002-0469-7269
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Bacharela em Teatro pelo Centro Universitário Sagrado Coração (UNISAGRADO 2019). Educadora Social
com ênfase em Teatro, na instituição SORRI - Bauru (2022). Produtora Cultural na Aflorar Cultura (2021) e
Diretora Teatral no Lar Santa Luzia para Cegos (2019). isaarosa14@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/8135306775195004 https://orcid.org/0000-0002-3695-1591.
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Ronaldo Záphas (Francisco dos Santos) ; Isabela Augusto Rosa
Florianópolis, v.2, n.44, p.1-23, set. 2022
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Entre la actriz y la performer: la visibilidad femenina construyendo un cuerpo
en el arte
Resumen
Este artículo se interesa por comprender cómo puede ocurrir la construcción
de un cuerpo en el arte, en los posibles límites entre una representación
teatral y una acción performativa. Se limita a explorar este tema a través de
algunas voces femeninas insertas en el campo teatral y performativo. El foco
principal en la investigación de estos materiales fue la observación del trabajo
corporal de las mujeres, a partir de sus cuerpos en el escenario, con el
objetivo de una visibilidad femenina y sus preguntas. Así, se utiliza como
materiales de análisis la obra de teatro
Tem alguém que nos odeia
que
engloba la representación lésbico-femenina y la performance
6 minutos
,
que trata cuestiones relativas al aborto.
Palabras clave
: Representación teatral. Acción performativa. Visibilidad
femenina.
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Possíveis limites entre a atuação teatral e a ação performática
Interessa-nos compreender como se dá a construção do corpo, nos possíveis
limites entre a atuação teatral e a ação performática. Como esse é um assunto
extenso, delimitamos nossa perspectiva, usando como norte o olhar das mulheres
que ocupam o centro da cena, por meio de duas obras: a performance intitulada
6 minutos
, de Camila Bacellar, e a peça
Tem alguém que nos odeia
, da Cia.
TeatroEnlatado, com as atrizes Maíra de Grandi e Mariana Mantovani.
Nós nos limitamos a explorar esses questionamentos a partir do pequeno
recorte que discutiremos aqui, qual seja, a pluralidade de vozes das mulheres que
estão inseridas no campo teatral e performático. Acreditamos na importância de
promover, incentivar e dar visibilidade ao trabalho de outras pessoas, além de
homens cisgêneros. E, por tal fato, quando existir uma flexão nominal de gênero,
preferimos adotar a desinência “a”, ou seja, no feminino. Fugindo das regras de
concordância tradicionais, nas quais a generalização é sempre escrita no
masculino, buscamos a desconstrução normativa do vocabulário. Isso não impede
que o leitor, que se identifica como homem, faça a transcrição da palavra para seu
gênero; exemplo: ao ler “atriz”, entendê-la para si como “ator”. Assim também
sendo para quem não se identifica dentro de nenhuma categoria de gênero binário,
pode entendê-la para si, na forma neutra da escrita. Esse aspecto é relevante,
neste estudo, uma vez que tal exercício intenta questionar o império do
patriarcado no campo discursivo e lançar foco a outras vozes.
Em nossa sociedade, por conta da estrutura patriarcal em que vivemos,
a exclusão feminina não é um fenômeno regional ou atual, mas uma
prática consagrada durante séculos, fundamentada apenas em crenças
ou opiniões que nada tem de científico ou razoável, mas sim escoradas
na opressão e no desejo de controle de um gênero por outro, ou seja, das
mulheres pelos homens. Entender e explicitar as vertentes dessa
opressão é conscientizar homens e mulheres hodiernos a combater e
renegar uma tradição perversa que continua a fazer vítimas e oprimidas
entre muitas populações desse mundo pretensamente globalizado (Trigo,
2015, p.37).
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Isso posto, era nosso desejo escolher duas referências para utilizar como
objeto de estudo: uma do campo teatral e outra da performance. Por que, então,
não ocupar esse espaço com exemplo de atrizes, ao invés de atores?
O principal foco na busca por esses materiais se deu pela observação do
trabalho corporal das atrizes, em função de seus corpos em cena. Não menos
importante, o tema dos trabalhos foi fortemente considerado, até mesmo para
que houvesse um alinhamento, o qual, de fato, dialogasse com o desejo de
visibilidade feminina. Assim, selecionamos a peça
Tem alguém que nos odeia
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que focaliza a representatividade lesbo-feminina, e a performance intitulada
6
minutos
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, que trata de questões a respeito do aborto.
Tem alguém que nos odeia
A peça é protagonizada pelas atrizes Mariana Mantovani e Maíra de Grandi, com
o texto e direção de Michelle Ferreira.
A história que o espetáculo conta é de duas mulheres, um casal lésbico,
onde uma delas é brasileira e a outra é estrangeira. Elas se conhecem no
exterior e decidem vir morar no Brasil, no apartamento do avô da Maria,
que é brasileira. A peça é um
thriller,
um suspense, um terror psicológico...
Elas começam a sofrer ataques homofóbicos e isso vai transformando
tanto a relação delas quanto as personagens mesmo. Esse seria o mote
da peça, a temática da homofobia contra um casal de lésbicas (Rosa,
2021, p.46).
É relevante frisar a dificuldade em localizar materiais com essa temática.
Camila Grillo salienta que “[...] mulheres lésbicas encontram cada vez menos
espaços de representatividade e escuta” (Grillo, 2019, p. 39), considerando o
apagamento e a tentativa de higienização da memória da lesbianidade, no Brasil.
Não é apenas nas montagens de teatro e nas ações performáticas que a
invisibilidade lésbica é gritante, mas também em todo o contexto geral de
4
O vídeo do espetáculo, na íntegra, pode ser acessado no link:
https://www.youtube.com/watch?v=p7Gq2eRhqSc&t=80s
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Para acessar o conteúdo da performance, você pode contatar Camila Bacellar, pelo e-mail
camilabastosbacellar@gmail.com.
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produções acadêmicas. “Ao contrário do que acontece com o Movimento LGBT e
Movimento Feminista, a revisão de literatura apontou a ausência de estudos,
pesquisas e investigações sobre o Movimento Lésbico no Brasil nas Ciências
Sociais e Humanas” (Lino, 2019, p.13).
Grillo nota esse desfalque ainda nos estágios iniciais de sua pesquisa, quando
se apresenta uma “[...] situação de invisibilidade devido à escassez de referências”
(Grillo, 2019, p.15).
Em outras palavras, acerca da emergência dos grupos lésbicos no Brasil,
pouco se tem notícia. As informações aparecem difusas nos estudos
sobre a história do Movimento Homossexual e Feminista, o que exige
dos/as leitores/as a construção de uma história dentro da exposição da
história [oficial]. Esse árduo exercício explicita o pouco interesse, por
parte dos pesquisadores/as por este movimento (Lino, 2019, p.13).
Como reflexo dessa lógica patriarcal, fica evidente o silenciamento dessas
mulheres e a falta de interesse nos assuntos que permeiam o “ser” lésbico.
Justamente por esse motivo é que se torna tão importante incentivar e exaltar a
memória dessas mulheres e dessas histórias que continuam sendo símbolos de
resistência.
Figura 1 – Tem Alguém que nos Odeia. Cena da porta do apartamento
com desenhos lesbofóbicos
Fonte: Arquivo pessoal do TeatroEnlatado
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6 minutos
A performance intitulada
6 minutos
trata sobre o aborto, outro assunto urgente
e necessário no nosso país, principalmente por ser recheado de estereótipos,
preconceitos e visões conservadoras, os quais invadem o espaço da liberdade da
mulher perante seu próprio corpo.
6 minutos
é uma peça de performance que faz uso do sangue menstrual
dentro de banheiros masculinos e, preferencialmente, de banheiros
públicos, no sentido de que esses equipamentos culturais - eu considero
eles como equipamentos públicos - você não tem que pagar pra acessar.
Isso se deu de diferentes maneiras, mas todas as vezes que eu fiz essa
performance nunca havia uma cobrança de bilheteria nos eventos e nos
contextos assim. Então, é uma performance que faz uso de sangue
menstrual próprio, dentro de banheiros masculinos pra estabelecer um
estado sensorial que pressiona as fronteiras impostas pelas diferentes
conjunturas globais relacionadas a direitos sexuais e reprodutivos de
corpos que têm útero. Alguns corpos podem ser vistos como colonizados
e como territórios ocupados por relações desiguais de poder. Então, é…
Essa seria uma espécie de sinopse desse trabalho (Rosa, 2021, p.63).
Até o presente momento, o ato é considerado crime no Brasil, indo na
contramão de vários países latino-americanos que já descriminalizaram o aborto,
como, por exemplo, Uruguai, Cuba, Guiana, Guiana Francesa, Porto Rico e, mais
recentemente, Argentina.
Existem algumas cláusulas na lei brasileira que permitem o aborto, em certas
situações, como em casos de estupro, mas isso não garante que, na prática, essas
mulheres (muitas vezes crianças) possam fazer isso de maneira segura e íntegra.
Muitas vezes, elas são expostas, rechaçadas e ridicularizadas pela mídia, pelos
médicos e manifestantes apoiados em discursos religiosos. É o caso de uma
menina de dez anos, recentemente exposta a uma situação humilhante no
hospital em que estava, para realizar o procedimento, o qual era permitido pela
lei:
O local se tornou campo de batalha. Um grupo, baseado principalmente
em preceitos religiosos, se opôs ao direito legal da menina de realizar a
interrupção gestacional terapêutica. Vídeos deram conta de agressões
verbais aos profissionais de saúde presentes. Outro grupo foi ao local
com o objetivo de manifestar apoio à menina e a seu direito de
interromper a gravidez (Assessoria..., 2020).