Memórias, subjetivação e educação no tempo presente: como as representações de violência sexual são abordadas nos livros didáticos de História?

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5965/2175180311282019466

Resumo

Este artigo tem como tema as representações de violência sexual nas narrativas de 6 coleções de livros didáticos de História, aprovados pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) de 2018, para o Ensino Médio. Trata-se de representações do passado que se apoiam em um conjunto de memórias de violência sexual, especialmente de estupros em cenários de guerra, colonialismo, escravidão e outros conflitos sociais. Com base em estudos feministas interseccionais, busca-se desvelar a historicidade dessas representações, atentando para abordagens, sentidos, discursos e implicações político-pedagógicas nos processos de subjetivação (de gênero/sexualidade) e na educação dos modos de ver, sentir, interpretar e tratar a violência sexual contra mulheres no tempo presente. Com esse intuito, o artigo também apresenta alguns questionamentos e orientações que podem subsidiar os processos de elaboração dos livros didáticos, bem como as formas de abordagem do tema violência sexual no ensino de História.

Palavras-chave: Livros Didáticos. Subjetividade. Violência Sexual. História – Estudo e Ensino.

Biografia do Autor

Susane Rodrigues de Oliveira, Universidade de Brasília

É historiadora e professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília. Fez mestrado (2002) e doutorado (2006) em História na UnB. Realizou estágio pós-doutoral na Unicamp e na Universidad Complutense de Madrid. É coordenadora do Laboratório de Ensino de História da UnB e líder do grupo de pesquisa Vozes Femininas (Cnpq/UnB).

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Publicado

2019-10-22

Como Citar

Oliveira, S. R. de. (2019). Memórias, subjetivação e educação no tempo presente: como as representações de violência sexual são abordadas nos livros didáticos de História?. Revista Tempo E Argumento, 11(28), 466 - 502. https://doi.org/10.5965/2175180311282019466