O futebol brasileiro e a construção de identidade clubística (1970-1971)[i]

 

 

 

Igo Ferreira de Sousa[ii]

Universidade Federal do Piauí (UFPI)

Teresina – PI, Brasil   

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Marcelo de Sousa Neto[iii]

Universidade Federal do Piauí (UFPI)

Teresina – PI, Brasil  

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O futebol brasileiro e a construção de identidade clubística (1970-1971)

 

Resumo

O presente artigo tem como principal objetivo analisar o processo de inserção do tricampeonato mundial no México em 1970 e a criação do Campeonato Brasileiro em 1971 no seio do Projeto de Integração Nacional durante a Ditadura Civil-Militar. Defendemos que a Seleção Brasileira, durante o certame mundial no México, e a criação do primeiro campeonato nacional de clubes se tornaram objetos que possibilitaram que novas identidades clubísticas fossem construídas no campo de jogo. A seleção canarinho e os clubes de futebol despertaram nos torcedores sentimentos de pertencimento, de amálgama social e futebolístico, algo em consonância com o momento que o Brasil passava durante os anos 1970, inserido dentro de uma Ditadura Civil-Militar, na sua fase mais rigorosa, os anos de chumbo sob a égide de Emílio Garrastazu Médici. Portanto, no decorrer desse período, a Seleção Brasileira e o Campeonato Brasileiro se tornaram ferramentas utilizadas pelo governo Médici para construir o Projeto de Integração Nacional, construir uma identidade nacional por meio do futebol. No decorrer deste artigo procuramos dialogar com alguns autores, tais como, Bauman (2005), Chaim (2014) e Gonçalves (2013). Utilizamos como principal fonte o Jornal dos Sports, fazendo análises das narrativas futebolísticas tratadas neste jornal no período de 1970 a 1971.

 

Palavras-chave: história; identidade; futebol; clubes. 

 

 

 

Brazilian football and the construction of club identity (1970-1971)  

 

 

Abstract

The main objective of this article is to analyze the process of insertion of the third world championship in México in 1970 and the creation of the Brazilian Championship in 1971 within the National Integration Project during the Civil-Military Dictatorship. Throughout the narrative of this text, we argue that the Brazilian National Team during the world championship in Mexico and the creation of the first national club championship became objects that enabled new club identities to be constructed on the playing field. The Brazilian National Team and the football clubs awakened in fans feelings of belonging, of social and football amalgamation, something in line with the moment that Brazil was going through during the 1970s, inserted within a Civil-Military Dictatorship, in its most rigorous phase, the years of lead under the aegis of Emílio Garrastazu Médici. Therefore, during this period, the Brazilian National Team and the Brazilian Championship became tools used by the Médici government to build the National Integration Project, to build a national identity through football. Throughout this article we seek to engage in dialogue with some authors, such as Bauman (2005), Chaim (2014), Gonçalves (2013). We use Jornal dos Sports as our main source in this article, analyzing the football narratives covered in this newspaper between 1970 and 1971.

 

Keywords: history; identity; soccer; clubs.

 

 

 

1 Introdução

O presente trabalho tem como principal objetivo analisar o processo de inserção do tricampeonato mundial no México em 1970 e a criação do Campeonato Brasileiro em 1971 no seio do Projeto de Integração Nacional durante a Ditadura Civil-Militar. Procuramos explicar como a conquista do tricampeonato da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México em 1970 e a criação do Campeonato Brasileiro em 1971 se tornaram objetos que contribuíram para formar novas identidades clubísticas entre os torcedores.

Dessa maneira, trabalhamos o futebol, mais especificamente, clubes de futebol e a Seleção Brasileira como elementos propulsores de identidades clubísticas. No caso do futebol, os torcedores estão procurando incessantemente identidades em relação ao clube ou à Seleção Nacional, uma vez que “o pertencimento e a identidade não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis” (Bauman, 2005, p. 17).

No primeiro momento, tecemos sobre a euforia futebolística dos brasileiros em torno da conquista da seleção canarinho em canchas mexicanas. Na segunda parte, analisamos o processo de criação do primeiro campeonato de caráter nacional do futebol brasileiro durante os anos de chumbo, e como essa iniciativa impulsionou a integração do território nacional por meio dos clubes de futebol das mais variadas regiões.

Para tecer os fios das tramas que marcaram o contexto do futebol brasileiro durante os anos de 1970 a 1971, propormos dialogar com a história do tempo presente, uma vez que, “a epistemologia da história do presente consiste, portanto, em interrogar a história a fim de propor novos dados que aumentarão sua capacidade de explicitação e de sugestão” (Chauveau; Tétart, 1999, p. 36), isto é, amplia o panorama analítico do historiador, não se prendendo apenas a um passado distante.

Assim, a história do tempo presente está em movimento, dessa forma, os sujeitos (torcedores) e as comunidades (clubes e Seleção Brasileira) modificaram suas características nessas camadas de temporalidades que cortam o presente, contribuindo para formar novas identidades clubísticas, novos modelos de pertencimento dos torcedores das equipes.

Neste trabalho, a principal fonte utilizada foi o Jornal dos Sports que circulou durante o período de 1970 a 1971 de forma diária. No aspecto metodológico, realizamos assim, uma análise dos discursos postos nesse documento histórico que trata desta temática, analisando seus aspectos internos e externos de produção discursiva. Nesse sentido, trabalhamos esse jornal como uma das vias que canalizava representações sociais dos torcedores brasileiros durante a Copa do Mundo no México em 1970. Discursos permeados de interesses, e que durante o texto, passaram por uma análise critica. Para complementar o uso de fontes, dialogamos com autores que tratam dessa temática tais como, Guterman (2014), Magalhães (2013) e Franco Júnior (2007).

 

2 A Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México em 1970

Nesta seção, propomo-nos a analisar o tricampeonato da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México, em 1970, e o quanto essa campanha possibilitou a construção de identidade clubística com torcedores. Diante disso, tentamos explicar como essa conquista permitiu que a autoestima dos adeptos brasileiros fosse impulsionada. Analisamos como esse feito em canchas mexicanas se tornou um componente no pertencimento clubístico, em uma identificação dos torcedores com a seleção canarinho.

Essa formação de laços futebolísticos entre o escrete nacional e a torcida tornou-se mais presente com a conquista do tricampeonato mundial em 1970. Portanto, analisamos essa vitória brasileira como algo que fortaleceu o sentimento de pertencimento dos aficionados em relação à comunidade clubística que vestia as cores da bandeira nacional.

No dia 31 de maio de 1970 é iniciada a IX Copa do Mundo organizada pela FIFA. Esse torneio trouxe algumas inovações para o campo futebolístico mundial, tais como, a utilização de cartões amarelos e vermelhos como formas de punir os atletas pelas suas indisciplinas durante as partidas, fossem elas físicas ou verbais. Nessa competição, a FIFA procurou também valorizar o jogo limpo, o chamado fair play, para tentar com isso tornar o espetáculo futebolístico mais admirável e menos violento (Magalhães, 2013, p. 74).

Esse jogo de origem inglesa era tratado no seu princípio como um esporte violento, no qual muitas vezes prevalecia a força física em detrimento da parte emocional ou racional. Diante disso, cada confronto era visto como uma guerra, um encontro de rivalidades históricas e futebolísticas. No entanto, essas características foram se transformando à medida que as sociedades modernas passaram a buscar outras referências sociais, isto é, a ter outras visões de mundo.

 Esses avanços sociais estavam em consonância com as mudanças no campo esportivo, sobretudo nas regras que tentavam impor limites no jogo violento. Nesse sentido, “para reduzir os danos físicos ao mínimo, existem regras que obrigam os adversários a adoptar um determinado comportamento” (Elias, 1992, p. 39), civilizado e respeitoso com as condutas que regem o jogo.

Outra inovação nesse torneio foram as transmissões dos jogos ao vivo na TV para boa parte do mundo, inclusive para o Brasil, algo festejado pela alta cúpula militar que ditava o ritmo da política brasileira. Assim, “pela primeira vez, os jogos seriam transmitidos ao vivo pela televisão” (Magalhães, 2010, p. 101). Esse caráter de ineditismo nas transmissões dos jogos se tornou uma das principais bandeiras levantadas pela propaganda do governo Médici, já que isso atendia aos seus interesses em tentar integrar o Brasil pelas vias do futebol.

As transmissões das pelejas podiam chegar aos lugares mais inóspitos e distantes do território brasileiro, permitindo que diferentes segmentos sociais compartilhassem as emoções dos jogos. Portanto, os confrontos transmitidos ao vivo pela televisão funcionavam como um importante elemento propulsor na construção da identidade clubística entre a Seleção Brasileira e os torcedores, uma vez que essa era uma ação que dialogava com os interesses do Regime Militar durante os anos de chumbo em vigência de 1968 a 1974.

Dessa maneira, não podemos reduzir a participação da Seleção Brasileira nesse torneio apenas à luz da sua utilização política feita pelo governo Médici. As atuações do escrete nacional em gramados mexicanos podem revelar diferentes dimensões da sociedade brasileira. Desse modo, levando-se em consideração as condições históricas postas nesse contexto, “o que a Copa do Mundo de 1970 trouxe de mais expressivos para o país – e por isso ela pode se considerada importante elemento de consenso – foi a identificação da seleção” (Cordeiro, 2015, p. 152), isto é, as maneiras pelas quais os torcedores se mobilizaram durante os jogos do selecionado brasileiro no certame mundial no México. Essa identificação foi sendo construída passo a passo no campo de jogo também dos afetos coletivos proporcionados às comunidades clubísticas.

As transformações ocorridas durante essa competição contribuíram para modificar a dinâmica do jogo e a maneira como o esporte era visto fora das quatro linhas. Por esses novos ângulos de visão, a comunidade desportista brasileira passou a apoiar uma das seleções que deixou marcado seu nome na história do futebol mundial pelos feitos conquistados dentro de campo e pelo que representou entre os torcedores. O time titular que foi disputar a Copa do Mundo no México era formada por Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Jairzinho, Pelé e Tostão, essa seleção “é considerada até hoje como a melhor seleção de todos os tempos” (Guterman, 2014, p. 162). A imagem 1 mostra a equipe brasileira que conquistou o título mundial nos gramados mexicanos em 1970.

 

Imagem 1 - Seleção Brasileira que foi representar o país na Copa do Mundo no México 1970

Fonte: CBF. Seleção brasileira. Rio de Janeiro: CBF, c2024. Disponível em:  https://www.cbf.com.br/selecao-brasileira/. Acesso em: 09 maio 2024.

 

Essa imagem mostra a delegação brasileira que representou o país em canchas mexicanas no mundial de 1970. Esses atletas contribuíram para a História e para a memória do futebol brasileiro, seja pelo que produziram em campo, seja pelos significados obtidos nos gramados para os torcedores brasileiros. Todavia, sobre a afirmação citada acima sobre esse escrete, é pertinente salientar que essa assertiva necessita ser bem analisada do ponto de vista histórico. Essa seleção é filha do seu tempo, isto é, fez parte de um contexto diferente, inserida em outras condições históricas que lhes permitiu conquistar tais feitos.

Dessa forma, não cabe aos historiadores fazerem juízos de valores acerca do passado, mas sim analisar os acontecimentos sob a ótica das leis da História tendo como horizonte as fontes, os vestígios deixados pelo homem, pois como afirma Marc Bloch, “o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” (Bloch, 2001, p. 54); assim é o historiador, onde existem vestígios, ele deve persistir na busca pela compreensão do passado.

Nesse contexto, a campanha do selecionado nacional na Copa do Mundo no México, em 1970, teve seu início promissor. Na estreia venceram a Thecoslováquia por 4x1, considerada uma das referências do futebol mundial à época. Em seguida, derrotaram os ingleses pelo placar de 1x0, gol feito já no final do jogo, demonstrando, assim, o quanto o adversário era qualificado; não por acaso a Inglaterra havia sido campeão do mundial em 1966.

A terceira partida foi contra a Seleção da Romênia, jogo vencido pelos brasileiros por 3x2, vitória apertada que mostrou que o futebol é um campo das incertezas, do imponderável, que nem sempre a lógica do jogo vence; é um esporte do drama e das tensões que possui sua historicidade e requer do historiador uma análise crítica. No futebol, procuramos “o drama, é a tragédia, é o horror, é a competência”, (Rodrigues, 1993, p. 104).

O confronto a seguir foi contra a Seleção do Peru, adversário que não demonstrou força diante do time brasileiro, que venceu por 4x2, resultado expressivo levando-se em consideração o nível de competitividade dessa Copa do Mundo. O próximo jogo da Seleção Brasileira carregava toda uma carga de significados dentro e fora de campo. O selecionado nacional teria que competir com a Seleção do Uruguai, responsável pela derrota do escrete brasileiro na Copa do Mundo de 1950 em pleno Maracanã lotado.

Esse trauma deixou seus traços na memória dos torcedores brasileiros, portanto, para os torcedores o confronto com os uruguaios no mundial no México era uma espécie de acerto de contas. Em relação a isso, o Jornal dos Sports traz em uma de suas capas o seguinte título, “Brasil em 50 chorou de tristezas e hoje chora de alegria” (Brasil [...], 1970, p. 1), pela vitória brasileira diante da Seleção do Uruguai.

 Notamos, a partir dessa passagem, o quanto esse meio de comunicação estava imerso na tentativa de divulgar os feitos da seleção nacional. Esse é um ponto fundamental para compreender os interesses desse jornal nesse contexto, e o quanto isso interfere na forma como a matéria é difundida entre os leitores, uma vez que os impressos, assim como outras fontes históricas, “produzem incessantemente representações da realidade histórica” (Barros, 2023, p. 12), forjam fotografias de um tecido social.

A vitória do escrete brasileiro na peleja contra os uruguaios em canchas mexicanas provocou entusiasmo na torcida nacional, mobilizando diferentes segmentos sociais pelas ruas e avenidas das principais cidades no Brasil. Os torcedores comemoravam a chegada do Brasil em mais uma final de Copa do Mundo, algo que na ótica dos torcedores deveria ser festejado. Esses ambientes sociais de celebrações futebolísticas tornavam-se espaços férteis para a construção de identidade clubística, de laços esportivos entre o escrete nacional e a torcida brasileira.

Esse sentimento de pertencimento se mostrou presente em diferentes regiões do país. Uma dessas cidades que se mobilizou em torno da vitória brasileira sobre o Uruguai foi o Rio de Janeiro, como é relatado a seguir pelo Jornal dos Sports:

 

Esta foi à verdadeira forra. Está chegando a hora. A taça é nossa. Era o grito da torcida carioca, que vibrou intensamente após a conquista do terceiro gol que garantiu a disputa da final da Copa do Mundo. De Santa Cruz ao Leblon, tudo era festa. Fogos, casas iluminada, gente nas ruas, bandeiras, de todos os clubes, desfraldadas. É o Brasil que volta a disputar uma final de Copa do Mundo. Os gritos de Brasil, Brasil, tomaram conta da cidade. Um bloco de cinco mil pessoas, saiu de Botafogo e tomou Copacabana de assalto. A cada esquina que passava conquistava novos foliões. Quando chegou a esquina da R. Miguel Lemos, recebeu o maior número de participantes. E todos cantavam: Olê, Olá, o Brasil está botando pra quebrar (Festa [...], 1970, p. 6).

 

Essa passagem reforça o quanto o Jornal dos Sports nesse contexto do futebol brasileiro, tentava inserir os torcedores cariocas na campanha da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México em 1970. Diante disso, notamos o seu esforço em buscar outros leitores para consumirem suas informações e propagandas, pois, “a meta é sempre conseguir adeptos para uma causa, sela ela empresarial ou política, e os artifícios para esse fim são múltiplos” (Capelato, 1988, p. 37).

A respeito das mobilizações dos torcedores na cidade do Rio de Janeiro, analisamos que as comemorações dos cariocas foram motivadas por dois fatores. Primeiro, o caráter histórico, isto é, a vitória sobre um adversário conhecido do futebol brasileiro, sobre um oponente que tinha provocado duros traumas na memória dos desportistas brasileiros na fatídica derrota no mundial de 1950, no Maracanã. Segundo, a torcida festejava a chegada do Brasil a mais uma final de Copa do Mundo, feitos realizados em 1950, 1958, 1962 e 1970.

O entusiasmo e a mobilização demonstravam o quanto os torcedores brasileiros em diferentes cidades estavam envolvidos com a seleção, que disputava o certame no México. Esses espaços em que diferentes segmentos sociais se entrelaçavam no compartilhamento de vivências em comum, se tornaram importantes ambientes na construção de pertencimento clubístico, no fortalecimento de novos laços coletivos.

A formação de identidades futebolísticas nos moldes antigos não se sustenta mais, não tem mais forças para se desenvolver, uma vez que “no admirável mundo novo das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, as identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis, simplesmente não funcionam” (Bauman, 2005, p. 33) mais na sociedade brasileira no que refere ao cenário futebolístico, em que os clubes e seus torcedores modificam constantemente suas redes de relações, seus sentimentos de pertencimento. O ambiente clubístico pode ser um desses componentes sociais.

Diante do exposto, não podemos analisar a cidade do Rio de Janeiro como o único polo irradiador da torcida brasileira sobre a Copa do Mundo no México em 1971. Nesse sentido, historicamente,a cidade é uma das praças esportivas mais desenvolvidas do país, com clubes e torcidas expressivas no futebol brasileiro. No entanto, naquele momento, outras cidades pelo Brasil mostravam suas dinâmicas nas formas de torcer e se mobilizarem com a campanha brasileira nos gramados mexicanos.

Portanto, o sentimento de pertencimento da torcida carioca acerca da Seleção Brasileira foi apenas mais um dentre outros espalhados pelo país, como foi o caso de Vitória (ES), em que torcedores de várias cidades do estado vibraram com a conquista da taça Jules Rimet no México em 1970, como destacado pela imprensa da época:

 

Imediatamente após o apito final do juiz do jogo Brasil x Itália, os capixabas deram vazão a sua alegria, improvisando um carnaval nunca visto nesta capital. Vários blocos vieram para o centro da cidade com suas baterias e logo tiveram a adesão de milhares de torcedores entusiasmados. Mais de 50 mil pessoas cantaram e dançaram durante horas na Avenida Jerônimo Monteiro e outras ruas principais de Vitória, obrigando o Departamento de Trânsito a desviar o tráfego de veículos para locais de menor movimento. Igual explosão de alegria ocorreu no interior do Estado, principalmente em Cachoeiro do Itapemirim, Colatina, Castelo e Alegre, onde o povo festejou a conquista da Copa do Mundo nas ruas e nas sedes dos principais clubes esportivos e recreativos daqueles municípios (Negrão [...], 1970, p. 11). 

 

 Esse sentimento de pertencimento clubístico não se restringia aos torcedores cariocas, era algo que se expandia para outros locais do Brasil. Nesse caso são notadas as movimentações realizadas por grupos de torcedores na cidade de Vitória no estado do Espírito Santo, em vibrar pelo tricampeonato mundial conquistado pela Seleção Brasileira. Pela análise da fonte, observamos também o quanto o entusiasmo pelo escrete nacional tinha se espalhado para além dos espaços urbanos. Diante disso, esse documento histórico estava inserido em uma realidade social brasileira marcada pela realização da Copa do Mundo no México em 1970, com isso, reverberava ideias e desejos no intuito de atender seus interesses. Um jornal, assim como outra fonte histórica, reflete o meio social em que está inserido.

Diante disso, a busca por identidade clubística dos torcedores em relação à seleção migrava da capital Vitória em direção aos municípios próximos, a outros ambientes citadinos que reivindicavam o direito de participar também das festas. Portanto, o ato de torcer e de sentir pertencente à comunidade desportiva Seleção Brasileira rompia fronteiras, não se resumia ao Rio de Janeiro e a São Paulo, uma vez que a procura por vínculos futebolísticos entre times e seus adeptos carregava consigo as insígnias do pertencimento. 

Nesse caso, o principal motivo que mobilizou essas comunidades de torcedores a ocuparem ruas e avenidas na cidade de Vitória foi a conquista do tricampeonato mundial contra a Itália no México em 1970. Adversário histórico do futebol brasileiro, que desde o início do confronto se apresentou como sendo um forte candidato a frustrar o desejo dos brasileiros em levantar a taça Jules Rimet. No entanto, com o decorrer do jogo, o cenário se mostrou favorável aos brasileiros nos gramados mexicanos.

A começar pelo placar da partida, 4x1 para o selecionado nacional. Um feito que alavancou a autoestima da torcida brasileira, possibilitando momentos de catarse coletiva, instantes de alegria em meio a tantas incertezas e ao autoritarismo provocado pela Ditadura Civil-Militar. Neste artigo, é importante ressalvar que não defendemos o futebol como sendo o ópio do povo, como um espaço alienante. Se tivéssemos proposto essa perspectiva, estaríamos reduzindo o esporte, e tirando dele outras análises pertinentes. O futebol é um dos ambientes pelos quais os brasileiros externam seus desejos, angústias, emoções, tristezas, enfim, é uma representação social.

Essa vitória simbolizou não apenas a importância desse feito para o futebol brasileiro, mas significou também o quanto os torcedores tinham se tornado, durante essa competição, o décimo segundo jogador. Copa do Mundo, assim como outras competições futebolísticas que envolvam clubes e seleções, só ganham a grandeza e o status que possuem graças às mobilizações dos torcedores nos diferentes espaços sociais, seja nos estádios, nas ruas e avenidas. Por isso, o torcedor é considerado o décimo segundo jogador, um componente que contribui para o fortalecimento da instituição clubística.   

A torcida brasileira depositava nas chuteiras dos jogadores a esperança da nação que buscava se consolidar na geopolítica do futebol mundial. Assim, “tal qual soldados partindo para guerra, os jogadores deveriam compreender que em seus pés repousavam os anseios e os sonhos de todo um povo” (Sarmento, 2006, p. 67-68). Os torcedoresprocuravam ser representados dentro de campo pelos atletas, em perceber nas atuações desses sujeitos o respeito à pátria. Essa busca pela aproximação entre torcida e Seleção possibilitava que os laços de identificação fossem fortalecidos, que o sentimento de pertencimento a essa comunidade se perpetuasse no seio dos torcedores.

Os laços sociais construídos entre a Seleção Brasileira e os torcedores na conquista da Copa do Mundo no México em 1970 formaram uma identidade social dentre tantas outras existentes na sociedade brasileira. Identidade construída sob a imagem física e simbólica dentro de uma sociedade complexa, pois, “poder-se ia arguir que a relação entre os torcedores e seus clubes, aqui denominada de pertencimento clubístico, é uma entre tantas identidades sociais vigentes nas sociedades complexas [...]” (Damo, 1998, p. 13). O ato de torcer por um clube ou seleção nacional é mais do que acompanhar e vibrar pelas suas conquistas, significa também poder fazer parte dessa comunidade movida por sentimentos em comuns, em sentir presente no grupo. Portanto, identidade que a todo instante está sendo moldada pelas condições históricas pelas quais os sujeitos estão inseridos.

A conquista no México impulsionou ainda mais esse sentimento ufanista dos torcedores brasileiros que vinha sendo construído em décadas anteriores. Esse projeto de cunho patriota tão propagado pelo governo Médici durante os anos de chumbo já vinha sendo desenhado por governos anteriores, isto é, as condições estavam postas sobre a mesa do tabuleiro político, faltava apenas uma ignição para turbinar esse projeto. Dessa maneira, “a vitória no México foi a centelha que deflagrou um processo que já estava em gestação no país” (Guterman, 2004, p. 276), isto é, o tricampeonato no México foi apenas mais uma fagulha que estimulou a autoestima dos torcedores brasileiros no espectro futebolístico, contribuindo assim para a consolidação da identidade clubística entre o escrete e os torcedores.

Nesse sentido, a Seleção Brasileira que conquistou o tricampeonato em 1970 funcionou como um dos principais elementos dentro do Projeto de Integração Nacional nos anos de chumbo. As suas atuações dentro de campo acabavam sendo utilizadas pelo governo Médici como forma de legitimar o Regime Militar, criar uma ideia de ordem, de normalidade social, algo que de fato não tinha na sociedade brasileira nesse período de autoritarismo. Assim, notamos que havia uma relação bem próxima entre futebol e política, um diálogo que ocorria constantemente durante aquele governo, pois, “nunca futebol e política andaram tão de mãos dadas por aqui como nos anos que se seguiram ao tri de 1970” (Máximo, 1999, p. 187).

Portanto, a seleção tinha o papel de construir uma identidade social entre os torcedores brasileiros, para com isso, formar a unidade nacional por meio do futebol. Função essa que o Campeonato Brasileiro em 1971 passaria a desenvolver.

 

3 O Campeonato Brasileiro de 1971

O período de 1964-1985 foi marcado pela Ditadura Civil-Militar no Brasil. Esses 21 anos foram marcados pelo autoritarismo, censura aos meios de comunicações e aos artistas e intelectuais contrários aos ideais do regime, além da tortura regida pelos militares.

Nesse contexto, foi criado o Campeonato Brasileiro de futebol em agosto de 1971, em substituição ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Nesse caso, mudou não apenas a nomenclatura do certame, mas também os seus sentidos esportivos. Essas modificações não foram obras do acaso e sem intenções. O principal objetivo de realizar essas mudanças era suprimir “os aspectos excludentes do Torneio Roberto Gomes Pedrosa” (Rocha, 2018, p. 97), era organizar uma competição de caráter nacional em que todos os estados tivessem um clube representante na beira dos gramados. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa não atendia a esses anseios, pois a sua ideia principal era limitar as participações de times de menor tradição no futebol nacional. Esse torneio, na realidade, tinha mais uma perspectiva regional do que nacional, já que os clubes que o constituíam eram formados nas regiões historicamente mais prósperas do Brasil.

Portanto, os clubes mais tradicionais do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense), São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo), Minas Gerais (Atlético Mineiro, Cruzeiro e América), Rio Grande do Sul (Internacional e Grêmio), Paraná (Coritiba e Atlético Paranaense), acabavam sendo privilegiados em detrimentos de outros times de menor expressão no futebol regional e até mesmo nacional. Essa desproporcionalidade no futebol brasileiro no início da década de 1970 dificultava ainda mais o projeto de integração nacional proposto pelo governo Médici. O futebol, na figura dos clubes, tinha se tornado uma das vias pelas quais esse plano seria canalizado.

Para tentar atenuar esse cenário de desigualdade no futebol brasileiro, “o governo pediu que a CBD elaborasse um campeonato realmente nacional, o que se confirmou em 1971, logo após a conquista do tri” (Guterman, 2014, p. 180). Analisamos que nem mesmo Médici considerava o Torneio Roberto Gomes Pedrosa como sendo uma competição de nível nacional. Por isso, a insistência em pressionar a CBD pela realização de um novo torneio, já que o anterior não atendia aos interesses políticos do governo. Nesse contexto, nasce o Campeonato Brasileiro, que no seu início tinha como principal alicerce integrar o futebol brasileiro por meio dos clubes.

No início, essas novas inclusões de equipes no campeonato ocorreram de forma lenta e gradual, visto que essa mudança sofria resistências de dirigentes de clubes do Sul e Sudeste, receosos com a possibilidade de dividir espaços com equipes de menor expressão no futebol brasileiro. A transformação do Campeonato Brasileiro em peça importante no plano de integrar o território nacional seria intensa a partir de 1972, com a inserção de times das regiões Norte e Nordeste. Dessa maneira, “neste ano, ingressaram no torneio um representante do estado do Pará (Remo), um do Amazonas (Nacional), um do Sergipe (Sergipe), um de Alagoas (CRB), mais um da Bahia (Vitória) e um do Rio Grande do Norte (ABC)” (Chaim, 2014, p. 107), reforçando, desse modo, o quanto a interligação do futebol brasileiro estava em curso naquele momento.

Essas regiões eram (e ainda são) as que historicamente tinham menos espaços e representantes em certames organizados pela CBD, inclusive no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que posteriormente se transformou em Campeonato Brasileiro. Portanto, tentar inserir outras praças esportivas no seio da principal competição de clubes do Brasil tornava-se uma das chaves adotada pelo governo Médici para aproximar todos os territórios brasileiros sob a égide do futebol, utilizando os vínculos construídos entre as comunidades clubísticas e seus torcedores, já que Médici utilizava também seu caráter torcedor para adentrar nesse ambiente. Desse modo, “o general presidente era um torcedor confesso, desses de acompanhar os jogos com radinho de pilha colado ao ouvido” (Máximo, 1999, p. 187).

O Campeonato Brasileiro na sua primeira edição, em 1971, teve como região estreante o Nordeste. Eram 20 o número de clubes participantes dessa temporada, isto é, em relação ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa (tinha 17 clubes) houve o aumento de três times. Diante disso, abriu-se uma vaga para “um representante a mais para MG (América) e PE (Sport Clube Recife) e a criação de uma vaga para o CE (Ceará Sporting Club)” (Chaim, 2014, p. 107). O critério utilizado pela CBD para escolher esses clubes para atuarem no Campeonato Nacional se deu por causa de suas popularidades em seus respectivos estados, isto é, devido a serem times tradicionais no futebol regional.  

Portanto, a partir do momento em que esses clubes de diferentes regiões se digladiavam em campo, o evento se transformava em verdadeiros encontros de lutas simbólicas e identidades clubísticas. Cada grupo de torcedores procurava fortalecer seus laços individuais e coletivos com as comunidades clubísticas às quais se sentiam pertencentes. A formação de identidade entre clubes e torcedores é pautada na diferença e nas representações pelas quais cada grupo de torcedores estabelece com suas comunidades futebolísticas.

Nesse sentido, o elemento diferenciador é o que possibilita determinados torcedores se sentirem pertencentes aos clubes. Símbolos como o hino, o uniforme, o escudo do time, são partes integrantes que ajudam a fortificar a ideia de pertencimento, isto é, como afirma Stuart Hall, a identidade, “para consolidar o processo, ela requer aquilo que é deixado de fora - o exterior que a constitui” (Hall, 2014, p. 106). Diante disso, torcer pelo Flamengo significa se negar a reconhecer o Vasco enquanto clube expressivo do futebol brasileiro. Um representa a antítese do outro, vibrar pelo rubro negro carioca era pertencer a essa comunidade e repelir a legião vascaína, confrontos esses ocorridos constantemente durantes as primeiras edições do Campeonato Brasileiro.

A imagem dessas comunidades clubísticas se tornava a negação das outras. As ideias de pertencimento dos torcedores aos clubes locais ganharam mais força à medida que o Campeonato Brasileiro se consolidava no cenário futebolístico nacional. Essa consolidação ocorreu com a inserção de novos clubes na competição nacional, agremiações esportivas que vinham de lugares historicamente menos privilegiados no futebol brasileiro.

É o caso do estado do Piauí, cujo representante no Campeonato Brasileiro foi a Sociedade Esportiva Tiradentes, time que passou a se tornar um dos objetos de orgulho da comunidade desportista piauiense nos primeiros anos da década de 1970. O time Tiradentes foi a equipe de futebol piauiense a participar do certame nacional organizado pela CBD nos novos moldes de organização. Dessa maneira, “nenhum time piauiense havia participado do torneio até aquele momento” (Said, 2011, p. 186), demonstrando assim o feito e a importância desse fato histórico para o futebol estadual, um estado que historicamente é visto pelas principais praças futebolísticas do país, como atrasado no âmbito esportivo.

Esse é um ponto em destaque, as equipes originadas em regiões economicamente mais desenvolvidas, continuam a ditar o ritmo do jogo no futebol brasileiro, realçando dessa forma que o passado ainda preserva seus resquícios no presente. Mas “a história não é somente o estudo do passado, ela também pode ser, com um menor recuo e métodos particulares, o estudo do presente” (Chauveau; Tétart, 1999, p. 15), em todas as suas dimensões.

E um dos objetivos do governo Médici no Projeto de Integração Nacional era tentar cimentar todas as regiões do Brasil por meio dos clubes de futebol que disputavam o Campeonato Brasileiro. Na perspectiva do governo, essa tabela entre clubes e torcedores possibilitaria que o regime se aproximasse da comunidade desportista, especialmente os que estavam em regiões distantes dos principais centros do país, em que não havia estádios e nem poder financeiro para manter e organizar eventos futebolísticos. 

Em relação à escolha dos clubes para participarem do Campeonato Brasileiro no início da década de 1970, a CBD utilizou como principal motivo o fato de os estados terem estádios, ou iniciar um projeto de construção de um palco de futebol. Assim aconteceu com os clubes que vinham das regiões Norte e Nordeste, por não possuírem estádios com grande capacidade de público para comportarem jogos do campeonato nacional. Esse critério foi utilizado pela Confederação Brasileira de Futebol na inserção do time Tiradentes para representar o Piauí no certame estadual. Nesse contexto, “o fato de o Estado não estar inserido no campeonato nacional por não possuir um estádio que comportasse jogos desse porte” (Fontineles, 2015, p. 169), impedia que o Piauí disputasse esse torneio, assim, o governo estadual iniciou o projeto do estádio Albertão, cuja inauguração foi em 26 de agosto de 1973. 

As construções e as reformulações de estádios de futebol no Brasil tinham como um dos objetivos tentar aproximar o máximo possível os torcedores dos clubes para os quais torcem, vibram e se sentem pertencentes, por isso que, entre outros motivos “estádios foram construídos, reformulados e ampliados por todo o país” (Cordeiro, 2014, p. 108). Nesse sentido, os estádios, assim como outros espaços futebolísticos, são ambientes em que os adeptos cultuam e festejam suas relações com os clubes. São espaços onde as identidades clubísticas são construídas e reformuladas.

Esses lugares se transformam em locais férteis para a construção de identidades clubísticas, que formam novas redes de sociabilidade entre os torcedores. Nesses espaços também simbólicos, o compartilhamento de sentimentos em comuns entre os sujeitos envolvidos nessas relações construídas nos estádios, ruas e avenidas dos principais centros do Brasil, possibilitava que esses laços entre os clubes e sua legião de seguidores fossem construídos no campo de jogo passo a passo, de forma lenta, gradual e flexível, pois, “[...] o pertencimento e a identidade não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis” (Bauman, 2005, p. 17). Tratando-se do campo de jogo, as relações construídas entre clubes e torcedores são moldadas constantemente. 

Por isso, a importância da formulação de um torneio de caráter nacional, que abarcasse todas as regiões. Diante disso, “a criação de um Campeonato Nacional de futebol, semântica e geograficamente, enquadrava-se no projeto de integração nacional, pois incorporaria mais times” (Rocha, 2018, p. 97). Sob essa perspectiva, a sua ocorrência funcionava como tentativa do governo em buscar a unidade nacional, especialmente sob a representatividade dos clubes de futebol pelos variados rincões brasileiros.

Essas interlocuções construídas entre clubes e torcidas impulsionadas por meio do Campeonato Brasileiro se tornaram algo de caráter mobilizador e agregador. Médici, percebendo essa potencialidade da identidade clubística, passou a construir uma tendenciosa relação com dois clubes de futebol tradicional no futebol brasileiro, Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (RS) e Clube de Regatas do Flamengo (RJ).

A estratégia do ex-presidente em escolher essas duas comunidades clubísticas para torcer não foi uma eventualidade, pelo contrário, essas ações visavam atingir determinados interesses políticos. Para demonstrar apreço pelo estado em que nasceu, Médici decide vibrar pelo time Grêmio, que juntamente com o Sport Club Internacional ainda mantêm a hegemonia no futebol gaúcho. Para agraciar a autoestima carioca, Médici escolhe o clube Flamengo, para tentar se aproximar da comunidade flamenguista, um expressivo reduto eleitoral. Nesses dois casos o ex-presidente tentava capitalizar a força do pertencimento clubístico dos gaúchos e cariocas, percebendo nesse entrelaçamento o quanto isso poderia proporcionar frutos políticos e esportivos.

Essas ideias de pertencimento entre clubes e torcedores eram tecidas muitas vezes no seio do Campeonato Brasileiro, iniciado em 1971. Portanto, o certame nacional criado nesse contexto tinha como um dos objetivos integrar o futebol brasileiro, fazer com que todas as regiões fossem representadas através dos clubes. Essas comunidades futebolísticas espalhadas por diversos espaços do país, de Norte a Sul, possibilitavam formações de novas identidades clubísticas, que encontravam no Campeonato Brasileiro uma centelha para se desenvolver.  

 

4 Considerações finais

Durante a construção deste artigo, defendemos que a conquista do tricampeonato da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México em 1970 e a criação do Campeonato Brasileiro em 1971 se tornaram propulsores de novas identidades clubísticas junto aos torcedores brasileiros. Essas duas comunidades clubísticas funcionaram como ligames sociais, objetos que entrelaçavam corações e mentes dos aficionados que vibravam por cada vitória conquistada em canchas mexicanas e apoiavam os clubes que disputavam o Campeonato Brasileiro.

A seleção e os clubes de futebol que disputavam o primeiro campeonato nacional funcionaram como ligames sociais, objetos que entrelaçavam corações e mentes dos torcedores na sociedade brasileira, permitindo que os adeptos se mobilizassem ainda mais para os jogos. Dessa maneira, demonstramos como esses dois elementos foram responsáveis em despertar na comunidade desportista brasileira sentimentos de pertencimentos, ufanismo que permeava as chuteiras e as arquibancadas nos estádios, ruas e avenidas das principais cidades brasileiras.

O tricampeonato mundial conquistado pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México em 1970, assim como a formação do Campeonato Brasileiro de 1971, se tornaram símbolos do momento de euforia que passava o futebol nacional. Um período marcado pela constante aproximação entre torcedores e escrete nacional que representava a nação em canchas mexicanas. Nessas relações se construíam identidades clubísticas formadas a partir de experiências e vivências dos sujeitos que se mobilizavam em torno das partidas, seja na vibração pela seleção canarinho ou por meio das atuações dos clubes no certame nacional.

 

Referências

 

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SAID, Gustavo. Como era bom aos domingos: Carlos Said, homem, a vida, o mito magro de aço. Teresina: EDUFPI: Halley, 2011.



[i] Artigo recebido em 06/11/2024

  Artigo aprovado em 09/06/2026

 

 

Seção: Artigos Demanda Contínua.

 

Editora-Chefe: Profa. Dra. Renata Rogowski Pozzo (UDESC).

 

 

[ii] Contribuições do autor: investigação; escrita - rascunho original.

[iii] Contribuições do autor: supervisão; escrita - análise e edição.