Chamada para o dossiê da Revista Palíndromo n. 47: As formas do feio nas artes: produções, histórias e experiências estéticas

17-09-2026

Chamada para o dossiê da Revista Palíndromo n. 47:

As formas do feio nas artes: produções, histórias e experiências estéticas

 

Organização: 

Fernanda Pequeno (UERJ)

Niura A. Legramante Ribeiro (UFRGS)

Rita Lages Rodrigues (UFMG)

 

Data-limite para submissão: 01/12/2026 

O que é o feio nas artes? O feio seria contrário ao belo? Sabe-se que nem sempre a arte esteve a serviço do que determinados segmentos sociais e culturais entendem por belo. O feio é uma construção historicamente variável, atravessada por valores culturais, sociais, políticos e religiosos. O que em determinada época era considerado banal, trivial ou de mau gosto pode, em outros contextos temporais, ser valorizado, como ocorreu com a arquitetura gótica, esquecida por séculos e reavaliada somente mais tarde. Assim, o feio assume configurações distintas ao longo do tempo, pois sofre mutações históricas e depende da interpretação de quem vê.  

A beleza, assim como a feiura, é singular às valorações de cada pessoa. O artista Francis Bacon, por exemplo, via beleza em carnes penduradas em açougues, imagem que, para alguns, seria repulsiva. Em entrevista, ele justificou que utilizava fotografias, ao invés de modelos vivos, para pintar retratos, porque as pessoas não aguentavam se verem deformadas em suas pinturas. 

Objetos, espaços, paisagens, corpos e práticas podem ser classificados como degradados, inadequados, vulgares, decadentes ou repulsivos segundo sistemas de valores historicamente constituídos. No campo das representações do corpo, gênero, raça, deficiência, velhice, sexualidade e outras formas de diferença evidenciam como os julgamentos estéticos podem participar da produção de hierarquias e processos de exclusão. Sob outro prisma, artistas podem apropriar-se daquilo que uma determinada cultura rejeita, deslocando seus sentidos e convertendo o feio em recurso poético, crítico ou político, ou mesmo subvertendo a própria percepção de beleza e feiura. 

Alguns autores podem subsidiar as reflexões sobre o feio, como Márcio Seligmann-Silva no estudo A beleza do feio e a sublimidade do mal, no qual aborda a emancipação do feio e do grotesco, as categorias rejeitadas como o feio, o disforme e o monstruoso; Wolfgang Kayser analisa o grotesco na literatura e na arte; e, ainda, Julia Kristeva, em Poderes do horror: Ensaio sobre a abjeção, demonstra que o abjeto pode causar repulsa, mas também atração. 

Em História da Feiura, Umberto Eco chama atenção para a multiplicidade e a historicidade da feiura, mostrando que os critérios de beleza e feiura se transformam entre épocas e culturas. A estética constitui um campo privilegiado para pensar não apenas os critérios que historicamente definiram o belo e o feio, mas também as transformações do gosto, do juízo e da experiência diante de formas capazes de produzir repulsa, estranhamento, desconforto, choque ou fascínio. O grotesco, o monstruoso, o demoníaco, o disforme, o obsceno, o repulsivo, o horrendo, o abjeto e o inquietante constituem algumas das muitas formas pelas quais aquilo que se reconhece como feio foi imaginado, representado e experimentado. Corpos, formas, imagens, objetos, matérias e experiências associados à repulsa, ao estranhamento, ao medo ou ao desconforto ocupam lugares diversos na história da arte, revelando os modos pelos quais diferentes sociedades constroem e transformam suas concepções de beleza e feiura.  

A história da arte tem oferecido ao olhar inúmeros exemplos de imagens que flertam com categorias da feiura. Historicamente o feio foi julgado em oposição ao belo, como lembram as representações escultóricas do período clássico em relação às do helenístico grego; ou as oposições entre retratos da juventude em relação à passagem do tempo que deixa marcas de deperecimentos corporais e de cicatrizes de doenças; as aparências aterrorizantes do diabo com olhos em brasa, orelhas enormes e garras assustadoras e de outras e figuras monstruosas como ameaças moralistas em cenas do inferno, em contraposição às imagens de benevolência do céu, como aquelas vistas nos relevos nos portais das igrejas e nas pinturas de períodos da arte que referenciam a religião. Atributos de feiura apareceram em feições grotescas e malignas nas representações de inimigos em sarcógafos, em pessoas vítimas de doenças como a peste, em caricaturas que misturam feições humanas com animais, em canibais, em bruxas e em extraterrestres. O feio também aparece contemplado nas imagens resultantes de violências de poder das guerras, com mortes que inundam fotografias trabalhadas como documento e arte, especialmente na contemporaneidade. 

Em 1919, Sigmund Freud escreveu um ensaio sobre o inquietante ou estranhamente familiar (Unheimliche), que pode trazer aportes conceituais para o tema. Na contemporaneidade, em representações do corpo, pode-se encontrar muitos exemplos da estética do estranhamento nas obras de artistas como Cindy Sherman, com manequins surreais destroçados; Joel-Peter Witikin, com corpos grotescos; Andrés Serrano, com fotografias de corpos mortos; Luigi Serafini, com o Codex Seraphinianus, um livro de artista que traz, entre outras imagens, dois corpos de amantes na cama que se metamorfoseiam em crocodilo. Recuando ainda mais no tempo, pode-se pensar na estética do feio, nas imagens de sátiros na mitologia grega, em Caravaggio com pinturas da Medusa, Francisco Goya com Saturno devorando seu filho. No cinema, O Labirinto do Fauno, de Guilhermo del Toro, traz a presença de criaturas abjetas, como a figura do fauno, ou o sapo gigante que se mostra com uma forma grotesca, que pelo seu aspecto viscoso causa repulsa, ou, ainda, uma criatura de aspecto humano, careca, de pele enrugada e esbranquiçada com olhos nas mãos que se configura como aterrorizante. 

Partindo deste amplo recorte teórico e visual, este dossiê poderá acolher imagens criadas nas artes visuais, na dança, no teatro, na música, no design, no cinema e em outras áreas afins, em qualquer período temporal, bem como textos analíticos inéditos sobre as diversas formas do feio nas artes, englobando suas produções, histórias e experiências estéticas.                      

Data limite para submissões: 01/12/2026

 

Se você nunca submeteu um artigo à revista Palíndromo, esse tutorial pode auxiliar: https://www.youtube.com/watch?v=Pus_57HpwTU