Memórias, subjetivação e educação no tempo presente: como as representações de violência sexual são abordadas nos livros didáticos de História?

Susane Rodrigues de Oliveira

Resumo


Este artigo tem como tema as representações de violência sexual nas narrativas de 6 coleções de livros didáticos de História, aprovados pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) de 2018, para o Ensino Médio. Trata-se de representações do passado que se apoiam em um conjunto de memórias de violência sexual, especialmente de estupros em cenários de guerra, colonialismo, escravidão e outros conflitos sociais. Com base em estudos feministas interseccionais, busca-se desvelar a historicidade dessas representações, atentando para abordagens, sentidos, discursos e implicações político-pedagógicas nos processos de subjetivação (de gênero/sexualidade) e na educação dos modos de ver, sentir, interpretar e tratar a violência sexual contra mulheres no tempo presente. Com esse intuito, o artigo também apresenta alguns questionamentos e orientações que podem subsidiar os processos de elaboração dos livros didáticos, bem como as formas de abordagem do tema violência sexual no ensino de História.

Palavras-chave: Livros Didáticos. Subjetividade. Violência Sexual. História – Estudo e Ensino.

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DOI: https://doi.org/10.5965/2175180311282019466

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