De estrada líquida à jazida energética: os sentidos do rio Tocantins na memória oral dos ribeirinhos

Temis Gomes Parente, Cícero Pereira da Silva Júnior

Resumo


Este trabalho busca compreender como as transformações sofridas pelo rio Tocantins, entre os séculos XX e XXI, modificaram a vida e a percepção das populações que lhe são tributárias. Abordamos esse rio como importante nexo articulador da economia do sertão sul-maranhense e do extremo norte goiano – hoje estado do Tocantins – com o Pará e o Nordeste, do século XIX até meados do século XX, até que a inauguração da Belém-Brasília, em 1960, e de empreendimentos hidrelétricos, a partir de 1970, operassem um deslocamento econômico do rio: passa de estrada líquida à jazida energética. As narrativas elaboradas pelos ribeirinhos atingidos pela Usina Hidrelétrica de Estreito, instalada nesse rio entre os estados do Tocantins e Maranhão, serviram-nos como fontes privilegiadas de análise. Para tanto, lançamos mão da História Oral como arcabouço teórico-metodológico, abordando as narrativas em suas relações com a memória, entendida como uma apreensão do passado enquanto experiência individual atravessada por categorias sociais e coletivas. O conceito de Dádiva é utilizado para abordar a relação construída entre os ribeirinhos e o rio, como uma experiência marcada por um esquema de reciprocidade norteado pelo movimento das águas, que ao mesmo tempo em que submerge o solo, fertiliza-o para a colheita vindoura.

Palavras-chave: Tocantins, Rio. Brasil, Nordeste. História oral. Antropologia. Saneamentos Políticos. Portugal.

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DOI: https://doi.org/10.5965/2175180311282019156

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