Memórias de um massacre: violência em A Guerra dos Pelados (Sylvio Back, 1971)

Rosane Kaminski

Resumo


Em 1971, no contexto dos anos de chumbo da ditadura civil-militar brasileira, o cineasta Sylvio Back lançou o seu segundo filme de longa-metragem, A Guerra dos Pelados, que versa sobre o Movimento do Contestado. A tônica do filme é pessimista e representa a opressão e o massacre sofridos pela comunidade de posseiros, tanto por parte dos fazendeiros locais, quanto pelas autoridades militares. Com tal obra, ao mesmo tempo em que edificava uma memória sobre o passado histórico brasileiro, Back posicionava-se frente às questões do seu tempo. O filme carrega uma ambiguidade bastante significativa ante seu contexto de produção, no que concerne à relação entre os grupos resistentes e a imposição do poder militar por meio do uso da violência. Partindo dessa relação metafórica entre o filme histórico e o seu tempo de produção, este artigo discute as formas de figuração da violência no filme, considerando que essas situações se distinguem por sua função dentro do enredo: algumas vezes, a violência é utilizada como instrumento de coerção, visando garantir a manutenção do poder e o predomínio das formas de dominação e exploração; noutras, a violência pode surgir como instrumento revolucionário, buscando transgredir as relações de poder que se arraigaram.

 

Palavras-chave: BACK, Sylvio - 1937. Cinema e História. Brasil - História - Campanha do Contestado, 1912-1916. Violência.


Texto completo:

PDF

Referências


Anexo. Diário do Paraná. Curitiba, 24.08.1976.

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

AZEREDO, Ely. “A guerra dos pelados” (II). Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 3 out. 1971.

BACK, Sylvio. Memória I - A estória dos que não estão na história. In: A guerra dos pelados: roteiro do filme. São Paulo: Annablume, 2008.

_____. Guerra dos Pelados. Panorama n.361. Curitiba, set. 1986.

_____. Entrevista concedida à autora por telefone, em 1º.09.2003.

BARROS, José Tavares de. A Guerra dos Pelados. Diário da Tarde. 25 ago. 1977.

CUNHA, Maria de Fátima. Eles ousaram lutar: a esquerda e a guerrilha nos anos 60/70. Londrina: Ed. UEL, 1998

DIAS, Reginaldo. Elementos para uma história da Ação Popular no Paraná. Revista de história regional. vol.4, n.2. Ponta Grossa: UEPG, inverno 1999.

ENRIQUEZ, Eugène. Matar sem remorso: reflexões sobre os assassinatos coletivos. Dossiê: Os lugares da violência. In: História: Questões & Debates n.35. Curitiba: Editora da UFPR, 2001.

FANON, Franz. Os condenados da terra. Edição Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968.

GALLO, Ivone. O Contestado: o sonho do milênio igualitário. Campinas: UNICAMP, 1999.

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas: a esquerda brasileira – das ilusões perdidas à luta armada. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1987.

MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916). Campinas: UNICAMP, 2004.

MAGALHÃES, Marion Brepohl de. Documento: manual do interrogatório. História: Questões & Debates n.40. Curitiba: Editora UFPR, 2004.

MARCELINO, Walmor. A guerra camponesa do contestado. Curitiba: Edição do autor, 1968.

_____. História da AP no Paraná. Curitiba: Quem de Direito, 2005.

MARIGHELLA, Carlos. Manual do guerrilheiro urbano e outros textos. 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1974.

NAPOLITANO, Marcos. O ‘tesouro perdido’: a resistência no campo da cultura (Brasil 1969 / 1976). In: DUARTE, André; LOPREATO, Christina; MAGALHÃES, Marion Brepohl (orgs.). A banalização da violência: a atualidade do pensamento de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.

RAMOS, Alcides. As vicissitudes da relação história-cinema. In: Canibalismo dos fracos: cinema e história do Brasil. Bauru: Edusc, 2002.

RIDENTI, Marcelo. Ação Popular: cristianismo e marxismo. In: RIDENTI, Marcelo e REIS FILHO, Daniel Aarão (orgs.). História do marxismo no Brasil, vol.V – partidos e organizações dos anos 20 aos 60. Campinas: EdUnicamp, 2002.

RODRIGUES, Rogério Rosa. Veredas de um grande sertão: a Guerra do Contestado e a modernização do Exército brasileiro na Primeira República. Tese de Doutorado em História. UFRJ, Rio de Janeiro, 2008.

QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Messianismo e conflito social. A guerra sertaneja do Contestado: 1912-1916. São Paulo: Ática, 1981.

SALTCHUCK, Jaime. Luta armada no Brasil dos anos 60-70. São Paulo: Anita Garibaldi, 1995.

SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.) História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes. Campinas: Unicamp, 2003.

_____. A história como trauma. In: SELIGMANN-SILVA, M.; NESTROVSKI, A. (orgs.). Catástrofe e representação. São Paulo: Escuta, 2000.

SORLIN, Pierre. La storia nei film: interpretazione del passato. Firenze: La Nuova Itália, 1984.

_____. Sociologie du cinéma. Paris: Éditions Aubier Montaigne, 1977.

VOLPINI, Oscar Milton. Entrevista concedida à autora. Curitiba, 27 de julho de 2006.

XAVIER, Ismail. “Considerações sobre a estética da violência”. In: Sertão mar. São Paulo: Cosac Naify, 2007.




DOI: https://doi.org/10.5965/2175180309212017153