Bob Cuspe: resistências microscópicas, contracondutas e a potência do “não” nos quadrinhos underground de Angeli

Maria da Conceição Francisca Pires

Resumo


O artigo analisa o personagem Bob Cuspe, criado pelo cartunista Angeli, à luz do conceito de “contracondutas”, ou seja, como formas inovadoras de resistência política que se fundam na desmobilização das redes de poder e de seus representantes. A partir do exame do personagem – especificamente as características demarcadas na história inaugural –, e das referências discursivas aplicadas para lhe dar sentido, intenta-se assinalar como o seu modo de vida expressa novas formas de resistência contemporâneas, na medida em que constitui um novo mundo, com regras próprias de convívio e de estar junto e, ao mesmo tempo, mantém presente uma condição crítica. Com essa análise, pretende-se refutar o argumento, frequente em estudos existentes sobre o mesmo, de que o personagem manifesta uma condição alienada do contexto social e político no qual está inserido. Finalmente, defende-se a premissa de que a revista Chiclete com Banana, onde foram veiculadas as histórias de Bob Cuspe, foi um espaço criado para reverberar um humor assumidamente melancólico e niilista, que não se identifica com as intenções e/ou utopias revolucionárias da geração anterior de artistas, políticos e intelectuais, e que se torna representativa de grande parte da juventude brasileira que se formou silenciada e sob o impacto do medo promovido pelo terror do estado ditatorial.

 

Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos. Angeli, 1956. Humor Gráfico.


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DOI: http://dx.doi.org/10.5965/2175180309202017075

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