“Olhar o mar como anfíbio”: humor e política em Luiz Rettamozo

Everton de Oliveira Moraes

Resumo


O artista gaúcho Luiz Carlos Rettamozo atuou intensamente na cena cultural curitibana da década de 1970. Da capital paranaense, Rettamozo buscou participar de uma movimentação que ocorria no Brasil naquele momento, isto é, aquela de um conjunto de poetas, músicos e artistas plásticos que Eduardo Viveiros de Castro sintetizou ao chamar de “tropical-concreta”. Tal movimentação foi vivenciada por uma geração que tinha no humor, entendido de forma ampla, como poética e não apenas como atitude cômica, um modo privilegiado de atuação, uma espécie de “arte das artes”, que permitia jogar com os paradoxos, ambiguidades e avessos da sociedade brasileira. O que interessa apontar neste artigo, por meio da análise da temporalidade própria de alguns dos cartuns e experimentações visuais de Rettamozo, é precisamente o modo como o artista buscou investir no humor não apenas como forma de contestação política à ditadura militar, então instalada no país, mas também como modo de desativar os dispositivos de poder postos para funcionar tanto pelo Estado como pelo mercado, que perpassavam a vida cotidiana brasileira, produzindo um clima de “sufoco”.

 

Palavras-chave: Rettamozo; Humor; Tempo; Política.


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DOI: https://doi.org/10.5965/2175180308182016185

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