Revista Tempo e Argumento

DOI: 10.5965/2175180307152015256
http://dx.doi.org/10.5965/2175180307152015256



A construção do inimigo judeu:
uma análise da obra de Jeffrey Herf
Resenha da obra:
HERF, Jefrey. Inimigo Judeu. Propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Tradução: Walter Solon. São Paulo: EDIPRO, 2014.


Karl Schurster
Doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Professor do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco.
Brasil
karl.schurster@gmail.com

O debate acerca do estatuto da Segunda Guerra Mundial no campo historiográfico tem se mostrado incessante e com bastante abertura tanto no âmbito teórico quanto metodológico. Não há dúvidas que essa abertura foi fruto de profundas e importantes mudanças oriundas da criação do Institut d’histoire du temps présent (IHTP) de Paris e do Institut für Zeitgeschicht, na Alemanha. A historiografia sobre a Segunda Guerra Mundial se debruçou sobre o tema através de três formas bastante claras e específicas: a primeira focava a história militar tradicional, com um estudo detalhado das grandes batalhas, das campanhas envolvendo os fortes e numerosos exércitos e suas manobras; a segunda dedicou-se a estudar a natureza dos regimes políticos envolvidos na guerra, mais especificamente os fascismos, o comunismo e a democracia liberal (inglesa e norte-americana); a terceira foi o Holocausto ou como preferimos denominar o Shoah. Optamos por utilizar o Shoah ao invés do conhecido termo Holocausto por uma questão teórica. Seguindo os indicativos dos renomados historiadores israelenses Israel Gutman (1923-2013) e Yehura Bauer (*1926), Holocausto é um termo da antiguidade ligado religiosamente à ideia de um sacrifício, o que não representa o ocorrido com a implementação da solução final pelos nazistas. Nesse caso, o uso do termo hebraico Shoah, massacre, seria mais adequado para tratar do extermínio em massa perpetrado pelos nazistas e seus adeptos durante a Segunda Guerra Mundial.

                As análises acerca do Shoah têm origens diversas, sendo a mais antiga a que foi apresentada pelas películas cinematográficas. Filmes como The Stranger de Orson Welles (1946), Night and Fog de Alain Resnais (1955) ou The Pawnbroker (1965) de Sidney Lumet, foram os primeiros a apresentar e/ou discutir o fenômeno histórico do Shoah. Vários estudos sobre o que se chamou de fenômeno concentracionário foram iniciados nos anos 50 do pós-guerra, mas ainda foram realizados num período em que a documentação sobre o Terceiro Reich estava sendo organizada, catalogada, logo, foram textos que sofreram diversas revisões ao longo da Guerra Fria. Com o fim da Segunda Guerra, em 1945, os historiadores alemães e europeus passaram a se dedicar ao estudo da natureza do nazismo, suas causas e penetração na sociedade alemã. É neste momento que se discute a famosa tese do sonderweg, do caminho especial da Alemanha. Segundo Sandrine Kotte, o Sonderweg não é apenas uma questão particular da história alemã, mas um conceito importante desta historiografia por não se debruçar apenas sobre a história propriamente dita, mas sobre a sua relação direta com a política e com a memória, a forma como uma sociedade lida com seus ‘traumas’. A questão central trazida pela historiografia do Sonderweg era qual o lugar do Nacional Socialismo na história alemã. Este debate se fez presente em variados momentos da história germânica, mas dois chamaram a atenção: o primeiro logo depois da Segunda Guerra Mundial e o outro nos anos 1980. Este último, envolvido diretamente na querela dos historiadores e na discussão sobre as dificuldades de lidar com o passado, a culpabilização coletiva do fenômeno nazista.

Em L’Empire allemand, publicado em 1973, Hans-Ulrich Wehler vê no nazismo o resultado de continuidades profundamente enraizadas no passado alemão. Numa outra ruptura em relação aos anos 1950, o conceito de fascismo renasce das cinzas. Desde 1963, em Le Fascisme dans son époque, o historiador alemão Ernst Nolte traz sua contribuição a esse revival propondo uma leitura fenomenológica das diferentes correntes de extrema-direita do entre-guerras. Durante os anos 1970, o cientista político Karl Dietrich Bracher assim como os historiadores Andreas Hillgruber e Klaus Hildebrand defenderam o paradigma totalitário e recusaram a noção do fascismo para explicação do Nacional Socialismo. O debate sobre o papel desempenhado por Hitler no funcionamento do sistema Nazista é mais fundamental ainda. Representado por Andreas Hillgruber e Kalus Hildebrand a escola intencionalista se opõe às novas teses funcionalistas. Preocupados em prestar contas do nazismo de outra maneira que não apenas pelo pensamento e ação de seu chefe (Hitler), Martin Broszat e Hans Mommsen promovem uma aproximação estruturalista, sublinham o caráter policrático (poliarquia de Neumann) da ditadura Nacional-Socialista e colocam em xeque a importância da figura de Hitler. Para estes historiadores havia uma concorrência entre as instituições no Nacional Socialismo mantendo uma permanente tensão política e desmentindo com isso a tese de que este regime era um monólito político. Na década de 1980, as controvérsias entre intencionalistas e funcionalistas perdem progressivamente sua substância, os pesquisadores se esforçam para combinar duas aproximações menos antinonimicas que não apareciam.

É inegável que a historiografia publicada na Europa e Estados Unidos durante a Guerra Fria foi fundamental para o estudo do Shoah. Os estudos de Raul Hilberg, assim como os primeiros textos de Saul Friedländer construíram bases de estudo para a renovada historiografia dos anos 90 do século passado sobre o Shoah, do qual podemos incluir Cristhopher Browning, Daniel Goldhagen, Martin Gilbert e Jeffrey Herf. A obra aqui em questão, Inimigo Judeu. Propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, tem a qualidade de refazer a história da propaganda antijudaica através de uma bibliografia atualizada e com utilização de fontes que remontam a decretos, leis, textos de jornais, depoimentos, diários dentre outros. A historiografia brasileira ainda é carente de boas publicações sobre o Shoah tendo como uma referência, relativamente recente, a tradução da monumental pesquisa de Martin Gilbert, Holocausto. A história dos judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial (2010). Como a obra de Gilbert tem um perfil mais voltado para especialistas, por mais que a linguagem seja bastante acessível ao público em geral interessado no tema, a obra de Herf, mesmo como um ensaio introdutório ao tema, pode e deve ser utilizada por novos pesquisadores que se aventurem nessa empreitada.

Essa não é a primeira obra de Herf publicada no Brasil. Em 1993, a editora Ensaio, juntamente com a Unicamp, lançou o livro mais conhecido do professor de Maryland, Modernismo reacionário: tecnologia, cultura e política na República de Weimar e no Terceiro Reich, no qual estudou o conservadorismo alemão no período posterior a Nietzsche, chegando até os intelectuais que leram e/ou fundamentaram o Nacional-Socialismo. A editora Edipro, que publicou o Inimigo Judeu aqui no Brasil, optou por pedir a um historiador brasileiro um prefácio para a edição local, tendo em vista a fazer um histórico do antissemitismo e apresentar as obras e o pensamento do professor norte-americano. Acreditamos que o prefácio brasileiro da obra é dispensável, pois não estamos falando de um tema desconhecido, nem tampouco de um autor ignoto pelos pares. Além disso, o prefácio tem alguns problemas conceituais que, ao invés de auxiliar a leitura da obra, em larga medida, a dificulta. O autor do prefácio utiliza o espaço para fazer um percurso do antissemitismo, já feito de forma brilhante e fundamental, por León Poliakov. Outro ponto é sua defesa atemporal do conceito de totalitarismo, totalmente em desuso pelos especialistas que estudam o Nazismo desde os anos ’80 do século passado. Além disso, alguns problemas conceituais aparecem no texto, especialmente quando o autor do prefácio se refere a Cristopher Browning e a Daniel Goldhagen. O referido historiador se refere a Browning como pertencente a escola funcionalista e a Goldhagen como intencionalista o que per si, constitui um erro historiográfico. Tanto um quanto o outro são duros críticos ao debate da querela dos historiadores alemães e às discussões que envolveram os intencionalistas e os funcionalistas. Goldhagen, em seu livro Os carrascos voluntários de Hitler. O povo alemão e o holocausto, chegou a afirmar que a disputa entre ‘intencionalistas-funcionalistas’ organizou, de alguma forma, o debate acadêmico sobre o Holocausto. Por mais que tenha ampliado nosso conhecimento sobre o assassinato em massa da comunidade judaica, essa disputa “acabou por confundir as análises sobre as causas políticas alemãs e não acrescentou quase nada ao nosso conhecimento sobre os perpetradores.” (GOLDHAGEN, 1997, p. 18.) Nesse aspecto, não podemos incluir esses autores em ‘escolas normativas de interpretação histórica’ das quais os mesmos não coadunam com sua visão generalizada e ultrapassada no início dos anos 1990.

O livro de Jefrey Herf é uma reunião de ensaios sobre a temática, propaganda, guerra e antissemitismo, tema ao qual o autor se dedica há muitos anos. Como quase todo historiador que trabalha com o assunto, Herf também passou parte de sua carreira estudando a memória da Segunda Guerra na Alemanha dividida pelo muro. Esse tipo de trabalho foi fundamental para conseguirmos pensar sobre os usos do passado, especialmente do passado recente. O livro Inimigo Judeu é quase todo baseado nas documentações estatísticas do Terceiro Reich, nos jornais de cunho antissemita amplamente divulgado durante o regime Nazi, no diário de Goebbels e nos discursos de Hitler e das lideranças nazistas organizados por Max Doramus (The Complete Hitler), além de utilizar informações do complexo Second Book de Hitler, de 1928, mas somente encontrado e disponibilizado no pós-guerra. Não estamos criticando o conteúdo do livro propriamente dito, mas apontando para os especialistas que estudam o tema que, mesmo sendo um livro bem escrito e com muitas informações e indicações de bibliografias e fontes sobre o assunto, não estamos falando de uma obra que traga uma contribuição de fato relevante para os estudos do Shoah. Mesmo sendo vencedor do Jewish Book Award, premiação criada para livros sobre a comunidade judaica, instituído em 1950, em Nova York, o livro se apresenta mais como um relato de informações e dados sobre o tema, dialogando com uma historiografia amplamente conhecida e debatida, do que propõe de fato algo inovador sobre a história do Shoah. Tanto o clássico La destrucción de los judíos europeus, de Raul Hilberg, quanto o já citado livro de Martin Gilbert, trabalham essa temática e também utilizam a mesma documentação presente no livro de Herf, que privilegia, em larga medida, o discurso do perpetrador sobre a vítima.  

Concordamos com o filósofo alemão Theodor Adorno que quem constrói a vítima é o algoz, mas, o grande debate que temos hoje sobre a história do Shoah e seus desafios contemporâneos é privilegiar obras e interpretações que consigam fazer uma interseção entre os diversos tipos de discursos produzidos durante essa catástrofe no intuito de poder melhor problematizá-la, evitando que os discursos de perpetradores e vítimas se sobreponham. É por isso que esperamos avidamente que livros como Holocaust. The Nazi persecution and murder of the jews, do professor Peter Longereich (2009), e mesmo o compêndio Rethinking the Holocaust (2001), do historiador israelense Yehura Bauer, sejam versados para o português.

Recebido em: 20/04/2015
Aprovado em: 15/07/2015

Revista Tempo e Argumento
Volume 07 - Número 15 - Ano 2015
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