DOI: 10.5965/2175180305102013453
http://dx.doi.org/10.5965/2175180305102013453



Por uma história da loucura no Sul do País

BORGES, Viviane Trindade. Loucos nem sempre mansos. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2012. 197 p.



Tássila Sant’Anna Espindola

Graduanda em História na Universidade do Estado de Santa Catarina.
tas.ssant@gmail.com

Dissertação de mestrado transformada em livro, o texto da professora Viviane Borges nos leva ao mundo da Colônia Itapuã, centro agrícola de reabilitação localizado no município de Viamão, no estado do Rio Grande do Sul. O texto é dividido em três capítulos. Apresenta uma introdução bem alentada, na qual a autora não só apresenta como se deu a criação da colônia, como igualmente expõe e discute os documentos usados para a elaboração do trabalho e como têm sido analisados em base a uma bibliografia específica.

O trabalho se estrutura a partir das seguintes problematizações: “Em que contexto atuavam esses personagens? Quais suas possibilidades e limites? Que experiências anteriores eles precisavam levar em conta?” (BORGES, 2012. p. 46).

O primeiro capítulo é dividido em quatro partes; cada uma delas trabalha um aspecto do contexto da criação do centro agrícola de reabilitação. No primeiro subcapítulo, intitulado “‘Aqui não é uma colônia de férias, e sim um hospital’, trata do surgimento das colônias agrícolas na Europa e no Brasil e dos conflitos por elas suscitados”. A autora discorre sobre o surgimento desse novo modelo de hospital. Sua narrativa nos levará à Europa do século XIX, quando surgiram as primeiras colônias agrícolas, assim como nos transportará ao Brasil do início do XX, para mostrar a versão brasileira deste modelo europeu. Esta proposta é perceptível a partir do trecho da pagina 48, onde se lê: “A psiquiatria no final do século XIX e início do XX abre-se a novas modalidades asilares que já não se concentravam apenas no manicômio tradicional” (BORGES, 2012, p. 48).

Já nos subcapítulos seguintes, reconhecem-se aspectos de colônias agrícolas no Rio Grande do Sul, anteriores à de Viamão, assim como também leva a entender os objetivos e as propostas da equipe da Colônia de Itapuã, que se autodenomina “anti-São Pedro” (uma referência ao tradicional hospital psiquiátrico de Porto Alegre). O texto, a partir desta parte, trabalhará principalmente sobre a década de 1970 e colocará a colônia dentro do modelo de assistência à saúde da América Latina.

No segundo capítulo do livro “Tornar os loucos mansos: as estratégias institucionais”, a autora adota o conceito de estratégia de Michel De Certau para analisar o cotidiano da Colônia Itapuã. De igual maneira, divide o texto em subcapítulos, trabalhando, em cada um deles, um aspecto desse cotidiano. Num primeiro momento, analisa o sistema de controle do tempo dentro da instituição. O controle será tema recorrente nesse capítulo, já que no segundo subcapítulo a discussão considera a instituição como um panóptico. É nesse momento que mostra o primeiro contato com relato dos internos. Dando prosseguimento ao estudo, o texto trabalha como foi legitimado este centro perante os pacientes e os funcionários de lá, e as razões que motivaram o saber psiquiátrico à criação desse modelo. 

Na construção do trabalho, a autora utilizou-se de referenciais teóricos para explicar a questão da sujeição psicológica a que eram submetidos os pacientes, pois, mesmo não havendo grades, a vigilância era ao menos sentida. Ela busca nas propostas de Michel Foucault a explicação para o conceito de panóptico de Bentham, que explica como a sujeição originária do poder disciplinar não necessitava de força para coagir. Conclui esta parte afirmando que “tal fato resulta em instituições com arquiteturas leves, sem grades nem correntes, pois o próprio internado sabe e impõe automaticamente, a si mesmo, os seus limites” (BORGES, 2012, p. 103).

No terceiro e último capítulo, intitulado “Nem tão mansos assim: o cotidiano e as táticas de resistência”, discorre sobre as táticas de resistência utilizadas pelos internados, analisando os “pormenores normalmente considerados sem importância, ou até triviais, baixos” (BORGES, 2012, p. 137) que, pela perspectiva de Michel De Certeau (2003, p. 47), se manifestam na “própria decisão, ato, maneira de aproveitar a ocasião”.  Neste sentido, pode-se pensar que a produção dos registros de suas vidas foi permitida pelo choque entre as normas e o cotidiano dos internados, interpretação possível já que alguns destes registros foram preservados até hoje.

Neste último capítulo, trabalha diversas entrevistas com pacientes, repletas de informações sobre as formas de resistência adotadas pelos sujeitos lá confinados, destacando as reclamações dos pacientes sobre as proibições existentes na Colônia Itapuã. Alguns excertos são bastante esclarecedores dessa situação, como o caso do senhor A. J. S., que, em 1973, declarou “não possuir condições de ir a uma reunião devido ao desejo de estar com uma mulher, não tendo, assim, ‘condições de tratar outros assuntos’” (BORGES, 2012, p. 142). A obra registra casos de relações homossexuais, proibidas na instituição. A autora relata, por exemplo, que no livro de ocorrências, com data 23 de novembro de 1977, é evidente a preocupação da equipe médica com esse comportamento, já que está escrito que se deve orientar e proteger um paciente para que este não tenha relações homossexuais (BORGES, 2012, p. 143). Mesmo assim, há o registro de um paciente que relata: “não se reprimia o homossexualismo; o que não se admitia, conforme mencionado anteriormente, era o abuso sexual dos mais fracos pelos mais fortes” (BORGES, 2012, p. 143).

O texto da professora Viviane é muito significativo, primeiramente pela forma didática com que é exposto; depois, pela excelente narrativa e, a meu ver, por um dos aspectos mais relevantes, que é o próprio tema, interessante e intrigante por si só. O livro “Loucos mas nem sempre mansos” é uma obra única, que retrata de forma abrangente e criteriosa a vida no Centro Agrícola de Reabilitação de Viamão – Rio Grande do Sul. Com forte referencial teórico em De Certeau, a obra traça um grande paralelo de análise, sem abdicar de um estilo lúdico e agradável.

A autora de “Loucos nem sempre Mansos” é atualmente professora do Departamento de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).  Sua trajetória acadêmica está ligada a instituições universitárias gaúchas. Passou um período em Paris, França, onde pôde aprofundar seus conhecimentos na École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS (2008 2009) e onde também se tornou membro da Association pour la Recherche sur le Brèsil en Europe (ARBRE). Atualmente, membro do Laboratório de Patrimônio Cultural (LabPac), ligado ao Centro de Ciências da Educação (Faed - UDESC), tem como foco de pesquisa temas relativos ao patrimônio cultural, à história da loucura e da psiquiatria, da saúde e doença, do sofrimento, da história oral, da memória e da escrita de si.

Recebido em: 02/07/2012
Aprovado em: 22/08/2013

Revista Tempo e Argumento
Volume 05 - Número 09 - Ano 2013
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