Dossiê: Estudos recentes sobre o trabalho têxtil no Brasil e sua historiografia (séculos XX e XXI)

O alcance do famigerado apito das fábricas de tecido ressoa na memória nacional para além dos registros de nosso cancioneiro. Sendo um dos mais consolidados ramos industriais no Brasil até os anos 1960, os trabalhadores têxteis ocupam cenários de luta em diversos contextos históricos brasileiros, numas vezes como protagonistas, noutras como coadjuvantes.

Tanto na produção acadêmica sobre os mundos do trabalho, como nas memórias registradas em livros e documentários por antigos operários, a categoria dos têxteis desperta atenção e mobiliza esforços intelectuais. Trata-se de uma indústria que foi vigorosa no contexto da Segunda Guerra e na sua sucessão imediata; claudicante entre as décadas de 1970-1990, devido a um intenso processo de desindustrialização; e hoje não escapa de escandalosas denúncias sobre usos de mão de obra em condições análogas à escravidão. Dos teares montados sobre o chão de fábricas aos porões semiclandestinos e abarrotados de trabalhadores imigrantes, a indústria têxtil brasileira nunca respeitou limites geográficos: se desenvolveu na região sul do país, mas também nas serras do Rio de Janeiro, por todas Minas Gerais e à beira mar em Salvador, no agreste nordestino e no interior do Amazonas. Sua produção ora se voltou para mercado externo, ora para mercados locais. Nela se empregaram milhares de trabalhadores, principalmente mulheres; com origens rural ou urbana; brancos, negros, caboclos e mestiços; idosos, adultos, jovens e também crianças; nascidos ou não no Brasil; todos com os diferentes níveis de instrução e qualificação profissional. A história dos trabalhadores têxteis brasileiros é inspiradora não apenas pela riqueza de relações que apresenta e pelas questões contemporâneas que acende, mas também pela diversidade de fontes em que se abastece: estudos etnográficos e antropológicos, amplamente lastreados em critérios da História Oral; acervos sindicais e jornalísticos; cine-documentários e registros memorialísticos; processos trabalhistas que averiguam analogias com o trabalho escravo contemporâneo; fontes de origem policial, com destaque para o que se revela após as muitas Comissões da Verdade instauradas no país na última década. O presente dossiê se propõe a reunir trabalhos dedicados à análise dessa categoria nas suas amplas relações com o tempo presente, com merecido destaque para os campos da memória, sejam elas operárias ou empresariais. O dossiê abrigará destacadamente pesquisas na área de História, mas também se abre para intercâmbio com áreas afins, como a Antropologia e a Sociologia do Trabalho. Receberá textos que apresentem pesquisa em nível avançado, com amplo uso de fontes vinculadas ao campo da História do Tempo Presente, e textos de caráter teórico-metodológicos e/ou historiográficos. Pesquisas que estabeleçam comparações entre a indústria e os trabalhadores têxteis brasileiros com outros países da América Latina serão igualmente bem recebidos.

Organizadores:

Dr. Murilo Leal Pereira Neto (Universidade Federal de São Paulo)

Dr. Felipe Augusto dos Santos Ribeiro (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)