Dar voz ao professor: narrativas de formação de professoras alfabetizadoras

Jussara Cassiano Nascimento

Resumo


Este texto tem como objetivo apresentar investigação sobre os processos de formação experienciados por professoras alfabetizadoras que atuam na rede pública de ensino no Brasil, onde narrativas autobiográficas foram utilizadas como estratégia da investigação. A partir dos anos oitenta assistimos a uma diversidade de teorias e práticas pedagógicas que caracterizavam uma mudança de eixo, passando de uma visão única para uma diversidade de concepções que valorizam a experiência vivida. Os docentes vão sendo reconhecidos como portadores de saberes plurais, críticos e interativos que se fundam numa práxis. A experiência do trabalho docente, em meio a tantos outros saberes, é percebida como elemento de formação capaz de valorizar o papel dos saberes da prática. Desta forma, o aprender contínuo é essencial e se concentra em dois pilares: a própria pessoa como agente e a escola como lugar de crescimento profissional permanente. Entendendo a vida cotidiana como território privilegiado do saber, optamos por buscar a fundamentação necessária para este texto em pesquisadores que procuram através da pesquisa aproximar a educação da vida, apontando novas possibilidades interpretativas do saber-fazer docente. Sendo assim, o cotidiano das práticas escolares, os estudos de caso e a escola em si têm assumido papel relevante na formação continuada de professores. Este enfoque é ampliado através de estudos que envolvem a história de vida pessoal e profissional dos professores. Assiste-se então a uma enorme proliferação dos métodos autobiográficos onde a reflexão sobre si (re) significa o mundo dos professores na perspectiva de que o ingrediente que estava faltando era a voz do professor. Nossa base teórica e metodológica espelha-se nos estudos e pesquisas de Benjamin (1999), Nóvoa (1995, 1998, 1999, 2000), Huberman (2000), Goodson (2000), Josso (1987, 2004), Catani & Bueno & Sousa (2000, 2002) e Souza (2006), dentre outros. Sabendo-se que a produção de práticas educativas eficazes só surgem a partir de uma reflexão da experiência pessoal partilhada entre os pares, e sendo assim, procuramos compreender como essas professoras foram se construindo alfabetizadoras de sucesso, e como viveram a mudança conceitual em termos de alfabetização, no Brasil, no final dos anos 1980, com a chegada da Psicogênese da Língua Escrita de Ferreiro & Teberosky (1985).Os resultados da pesquisa apontaram que a formação de professores deve ser compreendida como resultante dos múltiplos contextos dos quais a professora participa: nas discussões com seus pares, no cotidiano da sala de aula, nos encontros oficiais ou não de formação e, portanto, não pode ser considerada como um momento único e sim como uma formação que acontece ao longo da vida.

 


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