TECNOLOGIAS DIGITAIS E EXPERIÊNCIAS COM A LINGUAGEM PELAS CRIANÇAS SURDAS

Rosane Aparecida Favoreto da Silva

Resumo


Este trabalho busca descrever percepções de crianças surdas ao usarem tecnologias digitais para produzirem textos em Língua Portuguesa. Trata-se de parte de uma pesquisa de doutoramento que tem como colaboradoras crianças surdas sinalizantes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) que cursam a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental. A pesquisa se caracteriza como qualitativa descritiva, de cunho exploratório, usando a entrevista como instrumento para a coleta de dados. As entrevistas foram gravadas em vídeo, uma vez que a língua utilizada para a comunicação foi a Libras, e traduzidas para a Língua Portuguesa escrita na modalidade interlingual. A educação bilíngue de surdos se constitui como o cenário da pesquisa, no qual as experiências com as linguagens compreendem que as pessoas surdas fazem uso de duas línguas em diferentes contextos sociais: a língua de sinais como primeira língua e a língua oral e majoritária de seu país – na modalidade escrita – como segunda língua. O termo ‘primeira língua’ não se relaciona com a ordem em que a língua foi adquirida, mas diz respeito a língua que pode ser adquirida espontaneamente e que desempenha papel fundamental no desenvolvimento das crianças. Nesse sentido, o fato de a língua de sinais se configurar como primeira língua interfere em como se processa a apropriação da escrita em português pelas crianças surdas, uma vez que elas mobilizam habilidades diferentes daquelas utilizadas pelas crianças ouvintes, apontando para a necessidade do uso de estratégias diferenciadas para o ensino da escrita a partir de práticas de letramento visual. Nesse sentido, os recursos tecnológicos podem contribuir para o letramento das pessoas surdas, pois apresentam textos multimodais, como textos escritos, cores, imagens, gráficos, entre outros recursos semióticos, com características visuais.  As tecnologias digitais possibilitam o registro das histórias e narrativas em língua de sinais; desta forma, nessa investigação, a partir da apresentação de uma história infantil gravada em Libras, as crianças desenvolveram uma atividade em duplas, o que evidenciou as interações entre elas, destacando a importância da aquisição da língua de sinais desde cedo e, também, o uso da mediação por meio de instrumentos e de signos para concluir a tarefa solicitada. Observou-se que, por terem nascido na era digital, essas crianças escreveram motivadas utilizando o computador, sendo que apenas em determinados momentos tiveram dúvidas sobre como atender algumas convenções da língua escrita, rompendo com posições cristalizadas sobre as formas de escrever. Com o uso de tais tecnologias mudam os modos de produção de textos, a sua circulação e a materialidade dos objetos em que se escreve. Essa forma de ler e escrever mobiliza novos saberes e processos cognitivos, fazendo com que as pessoas utilizem a escrita e leitura no contexto social, atribuindo sentido a essas práticas. Portanto, ler e escrever envolve a negociação de sentidos e a construção de significado, sendo que as experiências visuais com a linguagem associadas às tecnologias digitais privilegiam as práticas bilíngues de letramento, podendo contribuir com a apropriação da escrita pelas crianças surdas.


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