O currículo local de matemática nos Ensinos Fundamental e Médio (2008 e 2012): uma pauta de análise do/no Observatório de Cultura Escolar

Heloisa Laura Queiroz Gonçalves da Costa, Fabiany de Cássia Tavares Silva

Resumo


O presente texto apresenta percurso de investigação, desenvolvida em tese de doutoramento, como pauta do programa de pesquisa do/no Observatório de Cultura Escolar (OCE), que toma como fontes e objetos os documentos curriculares produzidos para os espaços da educação formal e não formal. Espaços esses entendidos, de um lado, como instância de formação escolar, com objetivos educativos explícitos e ação intencional institucionalizada, estruturada e sistemática e, de outro, como uma possibilidade de produção, seleção e distribuição de conhecimento fora das estruturas curriculares do ensino tradicional, respectivamente. A par disso, analisamos dois documentos curriculares locais organizados e publicados por duas redes de ensino de um estado membro, isto é, Estadual (2012) e Municipal (2008), para o componente Matemática, nas etapas dos Ensinos Fundamental e Médio. Neste exercício desvelamos a intenção curricular manifesta nos resultados da seleção dos conhecimentos científicos, traduzindo as competências matemáticas necessárias para o tipo de aluno que se pretende formar e, em última instância, indicando os conhecimentos entendidos como poderosos, neste processo. Nossa hipótese ancorou-se no deslocamento sobre “conhecimento dos poderosos”, operado na dependência de quem produziu os conhecimentos científicos e as escolhas realizadas pelas comunidades epistêmicas dessas redes de ensino. Isto porque, apreendemos que as representações de determinados conhecimentos como “poderosos” no desenvolvimento intelectual das crianças e jovens na escola, não encontrava sua capacidade de ampliação da compreensão do mundo, para além das bases construídas nas experiências de um “cotidiano imaginado”. Diante disso, questionamos a forma como os documentos curriculares retrataram propostas concretas para a Matemática, na definição de seus conteúdos matemáticos como traduções didáticas dos conhecimentos matemáticos para/na aquisição do “conhecimento poderoso”. Para tanto, orientados pelas técnicas da pesquisa bibliográfico-documental, incursionamos por chaves de análise, entendidas como categorias que permitiram problematizar os conhecimentos selecionados e os conteúdos ofertados nos documentos curriculares, a partir de “lugares” epistemológicos, que transitaram entre os campos educativo (teoria crítica do currículo) e matemático (escolar). Neste sentido, nossas chaves de análise constituíram-se em instrumentos necessários e estratégicos na investigação da distribuição de conhecimento matemático, específico e determinado, bem como na compreensão da relação entre currículo, conhecimentos matemáticos e conhecimento reflexivo/emancipatório. Nesse exercício, apreendemos que os conteúdos selecionados para estas etapas da Educação Básica, ainda, se configuraram como conhecimento dos poderosos, próprios daqueles que dominam a Matemática, afastados das necessárias discussões acerca das novas construções curriculares de Matemática para a Educação Básica, para novas propostas em que o conhecimento matemático fosse tratado de forma articulada e numa configuração que valorizasse as articulações intermatemáticas e com os outros campos do conhecimento. Dito de outro modo, estávamos à procura de um currículo que mesmo determinado pelos avanços das ferramentas tecnológicas e da informação, das novas exigências de formação do cidadão inserido na sociedade do conhecimento, tratasse os conhecimentos matemáticos não como resposta aos padrões mercadológicos, mas, que conferisse poder aos que dele se apropriavam, possibilitando a ocupação de novas posições no espaço de lutas que habitavam. Afinal, foram documentos propostos para as escolas públicas estatais, para alunos oriundos da diversidade, desigualdade e diferença.


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